THE DARK SIDE OF THE MOON

Wilson M. Moura Ξ October, 3rd 2017

O Brasil possui características geográficas estupendas. Variedades climáticas dos tipos equatorial, tropical, tropical de altitude, tropical atlântico, subtropical e semiárido. Recursos naturais abundantes como petróleo, nióbio, minério de ferro, bauxita, níquel, manganês, estanho, ouro, platina e urânio. Um relevo com planaltos, planícies e depressões. Inúmeras bacias hidrográficas, farta vegetação abrangendo a floresta amazônica, mata atlântica e araucária, caatinga, cerrado, pantanal e vegetações litorâneas; são 7.367 quilômetros de exuberante extensão litorânea. Somos uma potência na produção agrícola, contudo com um forte paradoxo: aproximadamente 25% da produção é desperdiçada, num país com mais de 12 milhões de brasileiros que passam fome ou sofrem de desnutrição. Além disso, circulamos entre os nove maiores produtos internos brutos dentre 193 países, fato que nos faz concluir que, definitivamente, nosso gargalo não é falta de dinheiro. Nossos infortúnios não são entradas financeiras, nem questões climáticas graves.

Todos sabemos que dispomos de todas as condições de ordem e progresso, lema nacional da República Federativa do Brasil. Então, quais seriam os motivos que não nos permitem ter ordem administrativa (governança) e nos aproxime da maturidade emocional e mentalidade de crescimento?

Nosso povo possui características distintas e virtuosas como alegria, compaixão, comunicabilidade e criatividade. Mas, fico imaginando qual teria sido o pensamento do ex-embaixador do Brasil na França, Carlos Alves de Souza Filho, ao articular a célebre frase “Le Brèsil n’est pas un pays serieux”, dita ao Jornal do Brasil em Paris no ano de 1962?Talvez se fôssemos ao Amazonas e escalássemos o Pico da Neblina, com seus 2.995 metros de altitude, conseguiríamos enxergar as entrelinhas, num horizonte mais amplo e nítido. Bastaria adicionarmos umas pitadas de discernimento, concentração, esforço, determinação ecoragem. Sim, coragem para escalar o topo da montanha e, consequentemente, enxergar o que não queremos ver: nossas imperfeições ou em outras palavras, nossos sentimentos aflitivos. São os gargalos da cultura brasileira que nos impedem de evoluir mental e emocionalmente, mantendo-nos acorrentados nas aflições da insensatez. Nós, brasileiros, necessitamos meditar generosamente sobre sete aflições prementes: orgulho, indisciplina, desagregação, descompromisso, irresponsabilidade, desorganização e dispersão.

O orgulho talvez seja o sentimento aflitivo da mente mais sutil de ser analisado, devido ao fato de que existe uma ‘aura protetora’ ao redor dele. Sim, dificilmente as pessoas o reconhecem como um veneno mental, demonstrando uma atitude oposta: “tenho orgulho dele/dela/disso/daquilo”, sem contar os corriqueiros hábitos da cultura popular cantados em prosa e verso como o gracioso “Abençoados por Deus!” ou o melancólico “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Por isso, eu escrevi o artigo “Sob o Domínio do Orgulho”, específico sobre esse fagueiro aspecto mental, contendo detalhes históricos e pormenorizados sobre seu processo de criação e formas de manifestação.

A desagregação induz duas características: incapacidade de integração e interação. Não há um desejo genuíno de adaptação e envolvimento entre as 27 unidades federativas; é cada um por si. Logicamente, existem muitos aspectos culturais distintos, porém eles deveriam servir como fatores de congregação e criatividade. As discrepâncias são gigantescas e persistentes, num processo totalmente alicerçado no orgulho, há centenas de anos.

Outro aspecto importante a ser esclarecido é a falta de compromisso, marcante característica brasileira. O descompromisso exibe, via de regra, pessoas resmungando. O verbo reclamar é um dos mais utilizados no dia a dia: ‘culpar alguém’ pelos problemas e se isentar da própria responsabilidade e dos deveres de cidadão é o padrão comportamental comum. Afinal, nada é mais fácil do que ‘culpar os outros’, certo?

Pouquíssimos são os que leem os artigos mais importantes da Constituição Federal, que procuram escolher os políticos menos nocivos, que assumem sua parcela como cidadãos. Existem inúmeros exemplos como jogar bagas de cigarro e lixo no chão, enojar as praias e montanhas, destruir monumentos e locais públicos, sem considerar a abstenção no exercício do sufrágio universal (direito de voto) de forma consciente: “Eu não vou votar em ninguém!”. Como se outros não fossem votar em políticos medíocres e os mesmos não fossem assumir seus cargos; e quer queiramos ou não, nos representam nas instituições públicas. Não há, pois, qualquer compromisso com a mudança.

A associação de ausência de compromisso com cinismo é um outro exemplo explícito: “Vamos combinar um encontro! Vá lá em casa! Me liga!”. O objeto de análise aqui é que quem convida usualmente não marca data, nunca liga e, muitas vezes, nem dá o endereço. Quem morou em países desenvolvidos entende bem esse movimento sutil e paradoxal. É uma demonstração evidente de ausência de engajamento emocional e funcional, muito comum entre nós.

Eu também não poderia deixar de citar um outro paradigma nacional: reclamar somente quando algo acontece contra si mesmo. Sim, usualmente reclamamos quando a prefeitura não cuida da rua, quando alguém pisa no seu pé. Porém, raros são aqueles que praticam empatia ou abrem a boca para defender causas alheias; quando é com os outros, ignora-se. O próprio umbigo torna-se um estruturado e firme asilo contra a manifestação do discernimento e da consciência. Vemos aqui a sutil presença camuflada do orgulho, novamente. Reclama, reclama, mas não muda! Sendo assim, opovo brasileiro não é compromissado com a mudança, e isso não se atém as classes menos favorecidas. Ao contrário, os mais esclarecidos deveriam educar os menos capacitados, abrir um portal de diálogo. A tarefa do intelectual é criticar positivamente os modelos existentes e indicar as melhores práticas. Portanto, temos outros dois aspectos atrelados ao descomprometimento: irresponsabilidade e explícita escassez de empatia.

A irresponsabilidade denota com nitidez a ausência de conhecimentos, habilidades e consciência sobre as ações praticadas, suas circunstâncias e consequências, assim como da regra universal da meritocracia. Precisamos aprender a transformar “a culpa é dele” pela “a responsabilidade é nossa”.

Já a indisciplina é latente na sociedade contemporânea, reinando de forma absoluta. No entanto, o uso da disciplina é um fator mental cada vez mais requisitado devido ao crescente volume de estímulos sensoriais e tarefas diárias; a mente não consegue processar tantas informações com eficácia. Etimologicamente, o termo disciplina induz à ação de se instruir, educação, ordem, mas, via de regra, é relacionado à conduta moral. Por extensão de sentido, a disciplina possui uma relação implícita, e muitas vezes explícita, com várias virtudes como planejamento, estratégia, ordenação, eficiência, perseverança, memória ativa (lembrança dos bons ensinamentos) e constância. Num aspecto mais sutil, a disciplina nos conecta com nosso grau de liberdade, espiritualidade e criatividade. A espiritualidade é a habilidade de agir em paz, isto é, o nível de liberdade que se obtém em relação às próprias percepções. Quanto mais apegados aos conceitos e julgamentos, menos livres estamos, menos criatividade geramos: mais afastados ficamos da pacificação da mente. Por isso, a disciplina também é um fator fundamental na prática da meditação, pois fortalece a atenção plena e inibe a atuação das ações não virtuosas.

Nesse sentido, a disciplina é um caminho sábio para organizar, preservar a liberdade mental e otimizar nosso precioso tempo, único bem irrecuperável. A disciplina produz conexões diretas com a qualidade das nossas escolhas e, portanto, com o nível de liberdade que possuímos perante a vida. Nos faculta a possibilidade de estar sempre atentos, contemplativos, no sentido de nos afastar dos nossos condicionamentos.

O poeta e dramaturgo grego Ésquilo (525/456 a.C.), considerado o criador das tragédias gregas, escreveu mais de 90 peças teatrais com temas que variavam entre o pavor cósmico e a consciência ética, relacionando as poderosas figuras da mitologia greco-romana e a condição humana. Num dos seus textos geniais dizia que “a disciplina é a mãe do êxito”. Em suas obras literárias Ensaios (Essays), publicadas em 1597, 1612 e 1625, o filósofo e cientista inglês Francis Bacon dizia “escolher o tempo significa poupar tempo”. Ele estabelecia uma relação direta do tempo com a disciplina e nos convidava a uma sábia reflexão sobre ordenamento, planejamento, eficiência e dimensionamento das nossas ações. Ordenar as coisas para otimizar tempo, ou seja, não perder tempo, fazer com que as coisas aconteçam.

Além disso, a disciplina também é matéria constante nos textos milenares dos Vedas e foi tema de contemplação de outros grandes pensadores da História como Siddhartha Gautama, Aristóteles e Confúcio; mais recentemente Max Weber, Michel Foucault, Jean Piaget, dentre outros. Em última análise, a disciplina é um treinamento de plena atenção ética. A arte da disciplina nos ensina a dizer não, sem justificativas. Uma ferramenta fundamental quer para a realização de objetivos, como para a pacificação da mente.

As dispersões, nossa última convidada, são definitivamente encontradas em profusão na sociedade. Elas se multiplicam através de distrações, inquietações e excitações, produzindo gerações dispersas e confusas. As dispersões também induzem uma inabilidade para priorizar metas, comoa escolha da compra de um bem ao invés da priorização da saúde financeira. Há um enorme dispêndio energético sem a geração de resultados efetivos, num fenômeno crônico que se sucede em todas as classes sociais.

Ora, se não praticamos a disciplina, somos dispersos, orgulhosos, irresponsáveis, descompromissados, não unimos atitudes e estratégias em benefício mútuo, nem nos envolvemos com as situações alheias, não podemos ser organizados. Esse processo faz com que não consigamos produzir uma agenda assertiva e, consequentemente, não temos metas. Convivemos com determinados objetivos há séculos, mas não conseguimos realizá-los, numa espécie de síndrome do cavalo paraguaio. O Brasil seria o país dos pleonasmos ou do futuro?

Todas essas formas de ações incessantes e condicionadas são usadas como subterfúgio da ansiedade, estresse negativo e depressão, dentre outras aflições, gerando vibrações cerebrais elevadas e confusão mental. Quanto maior a frequência cerebral, menos saúde, menor a clareza com relação aos fatos, maior o grau de ações infrutíferas; menos vemos com os olhos da consciência. São todos temas riquíssimos de pesquisa, tanto psicológica como sociológica e antropologicamente, pois temos uma geração muito bem informada, mas que não sabe transformar a informação em conhecimento.

Estes aspectos sutis de apreciação envolvem autoconhecimento e, consequentemente, uma vontade genuína de mudança. Não podemos mais nos dar o luxo de dizer que somos um país jovem: isso é conversa pra boi dormir. A informação está aí, de livre acesso: falta-nos vontade de transmutá-la em ações inteligentes, em comportamento explícito. Necessitamos modificar nossa cultura, aproveitando a gigantesca onda de corrente energética vigente rumo ao discernimento e a sabedoria.

Mas como sempre nos é facultado o livre arbítrio, também podemos continuar nos esbaldando nos versos da música ‘Eclipse’, do Pink Floyd: “Não existe um lado escuro na lua; na realidade ela é toda negra!”

Niterói, 3 de outubro de 2017

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência emocional e intrapessoal.

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