SOB O DOMÍNIO DO ORGULHO

Wilson M. Moura Ξ September, 5th 2017

O orgulho é um tema presente em diferentes culturas, muitas vezes favorito e muitíssimo bem dissimulado. O que me deixa curioso é que, apesar de ser usualmente utilizado, não recebe a atenção que deveria merecer. Os dicionários introduzem definições sucintas e ambíguas sobre o orgulho como ‘sentimento de satisfação’ ou ‘soberba/arrogância/brio’, dependendo da circunstância. Se formos pesquisar o termo alegria nos mesmos dicionários não vamos encontrar o orgulho como sinônimo. Aliás, você tem alguma dúvida sobre a sensação de alegria? Existe ambiguidade quando ela se manifesta? Você se acha superior a alguém quando está feliz? Então, qual seria a necessidade de usar a palavra orgulho ou de sentir orgulho?

De fato, há um firme desejo popular, consciente ou não, de se orgulhar de alguma coisa, sem que haja, entretanto, uma ponderação sobre suas causas, circunstâncias e consequências, o que me faz lembrar do memorável questionamento do poeta alemão Bertolt Brecht “Que tempos são estes em que é preciso defender o óbvio?”. As inúmeras manifestações de orgulho são óbvias, ululantes e, por isso, requerem prioridade de análise, já que, de uma forma ou outra, o orgulho está sempre querendo furar a fila para exibir suas artimanhas bem estruturadas.

Tito Lucrécio, filósofo e cientista romano, nos introduziu um belo poema onde afirmava que “só se encontra alegria se o orgulho, de tudo saber, dizer e fazer, fosse banido das ações cotidianas”. Continuava sua reflexão, esclarecendo que o orgulho produz certezas delirantes, fazendo com que o homem se sinta maior do que a vida. Exemplificou magistralmente, afirmando “Sábios são os bambus, que se inclinam como dançarinos quando os ventos varrem o mundo, voltando, humildemente e inteiros, quando os ventos cessam”. E que “os troncos espessos e orgulhosos não resistem aos vendavais”.

De acordo com os evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus pronunciou o sermão da montanha proclamando as bem-aventuranças, ou seja, a conduta moral rumo à verdadeira felicidade. Bem-aventurados, disse, os de coração puro, numa clara alusão contrária ao orgulho. Temos duas citações evidentes “Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti.” (Mateus 6:2) e “Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita” (Mateus 6:3). Ao comentar este aspecto do sermão, o arcebispo de Constantinopla João Crisóstomo exaltou com discernimento o veneno do orgulho “Podeis praticar boas ações diante dos homens e, entretanto, não procurar o louvor humano; podeis praticá-las em segredo e, entretanto, em vosso coração, desejar que elas possam vir a ser conhecidas, para ganhar esse louvor.” Também dizia que no coração onde Cristo e seu amor pelo homem dominam tudo, não há lugar para o ‘eu’.

O argelino teólogo, filósofo e antigo bispo de Hipona, conhecido como Santo Agostinho, citava que o orgulho é a fonte de todas as fraquezas, porque é a fonte de todos os vícios. Já o papa Gregório I, famoso por suas habilidades em gramática, dialética e retórica, instituiu os 7 pecados capitais ou vícios da Igreja católica, enfatizando o orgulho/soberba como parte da lista, caracterizada pela arrogância, vaidade, ausência de humildade e autossuficiência.

Tomás de Aquino foi um teólogo italiano canonizado em 1323, cujas obras tiveram forte influência na Escolástica, método de aprendizagem das escolas monásticas cristãs. Influenciado pelo filósofo grego Aristóteles, interpretava a teologia como uma ciência, e considerava o orgulho como a rainha dos 7 pecados originais mortais, afirmando que ele nos conduz a todos os pecados e nos vicia.

Eu não poderia deixar de citar o escritor italiano Dante Aliguieri, autor da fantástica obra Divina Comédia, poema envolvendo todos os personagens bíblicos, do antigo ao novo testamento. Dividida em 3 livros escritos em diferentes períodos (Inferno, Purgatório e Paraíso), o autor descreve uma viagem em que se sucedem diversos acontecimentos, onde ele próprio encarna um dos três personagens principais: o homem. Na narrativa, Dante percorre os nove andares do Inferno, na primeira parte, passando pelo orgulho/soberba.

Em 1589, o padre jesuíta Peter Binsfeld comparou cada um dos pecados capitais a um demônio, relacionando o orgulho a Lúcifer. Segundo a obra Tróilo e Créssida, do século XVII, William Shakespeare qualificava o orgulhopela boca do herói grego Agamenon: “O orgulhoso se devora a si mesmo: o orgulho é seu próprio espelho, sua própria trombeta, sua própria crônica”. Ainda no mesmo período, o escritor francês François de La Rochefoucauld escrevia que se não tivéssemos orgulho, não nos queixaríamos dos outros. Já em meados do século XVIII, o linguista e dramaturgo italiano Giuseppe Baretti escrevia “O orgulho é filho da ignorância”, em seu periódico La Frusta Letteraria (O Chicote Literário).

A partir da segunda etapa da Revolução industrial, no período entre 1860 e 1900, com a fixação industrial da Inglaterra e sua propagação em países como a Alemanha, França, Itália e Rússia, o orgulho transformou-se numa “propensa virtude”. Supostamente, passou a ser um fator determinante para o sucesso familiar e profissional. O conceito de sucesso começou a surgir na sociedade num movimento ascendente de competitividade, individualismo e desagregação, com o consequente abandono das escrituras antigas. Mais recentemente, o chileno Pablo Neruda utilizava sua escrita como ferramenta de conscientização e, em dos seus reflexivos poemas, nos ensinava como não empobrecer a vida, numa citação explícita sobre o orgulho “Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, amo-te simplesmente sem problemas nem orgulho: amo-te assim porque não sei amar de outra maneira”.

Enfim, tivemos vários grandes pensadores meditando sobre o orgulho, contudo, é na filosofia budista que encontramos os ensinamentos mais detalhados. Mestre Sidarta Gautama nos introduziu um vasto conhecimento sobre o modo de funcionamento da mente, explicitando o orgulho com um dos seus 6 venenos dominantes. Ele exagera o estado e a condição de vida, trazendo efeitos extremamente nocivos. Possui a ignorância mental condicionada como causa-raiz, que por sua vez faz surgir os desejos e apegos condicionados, aduzindo duas vertentes: a firme percepção de supremacia em relação ao que a pessoa realmente e o aferramento às estruturas mentais condicionadas.

Isso posto, o orgulho é alicerçado, invariavelmente, numa comparação entre duas ou mais pessoas, explicitando um sentimento grosseiro, consciente ou não, de autoafirmação e de imposição da própria vontade. Obstrui a visão sobre a regra universal da impermanência, onde tudo está, nada é: os fenômenos são cíclicos. Faz surgir a sensação de superioridade em relação aos outros, inflando a própria condição; é uma atitude delusória que exagera o estado do eu e sua condição de vida, trazendo efeitos demasiadamente aflitivos, cerceadores e improdutivos. Com raízes muito sutis, bem protegidas e camufladas, é um sentimento muito difícil de ser transmutado, produzindo uma gigantesca delusão de que pode ser benéfico: cria-se uma ilusão e passa-se a acreditar que ela seja verdadeira. É como uma erva daninha: por mais que se tente extingui-la, sempre encontra um jeitinho de brotar de novo, o que me fez perceber o grau de enraizamento desse insinuante veneno. Agir de forma orgulhosa é como apreciar açúcar refinado ou sal excessivamente: a sensação é saborosa, fagueira e aprazível, porém, provoca um mal condicionante, invisível e avassalador.

São atitudes implícitas e ocultas, num processo mental que faz surgir a ideia de que você é mais importante do que realmente é. Quando o orgulho se manifesta, perdemos a capacidade de empatia, aceitar opiniões e dialogar, respeito ao próximo e compaixão. Com isso, emerge uma condição de irresponsabilidade e incompetência para olhar para si e reconhecer as próprias limitações, indo na direção contrária à integridade. Além disso, o orgulho não possui qualquer espécie de relacionamento com a autoestima ou automotivação, ao contrário, só provoca confusão mental, inércia, prepotência, ciúme e inveja, além de inibir o aprendizado e a capacidade de reação consciente, bloqueando o aprimoramento conjuntural e espiritual.

O psicólogo Richard Alpert (Ram Dass) afirmava “Não há nada de nobre em ser superior a outro ser humano. A verdadeira nobreza é ser superior ao que você foi anteriormente”. Quando afirmamos ter orgulho de nós mesmos ou de outra pessoa estamos, de fato, alimentando nosso ego, o que implica, necessariamente, numa sensação de superioridade (dominação). É uma manifestação automática e condicionada da mente. O ‘eu’ se faz presente, se exacerba e canta para a plateia com todo o seu potencial; tenta se sobressair em relação ao nós, num movimento de autoproteção, criando um obstáculo imperceptível para gerar relacionamentos afetivos salutares. Ninguém é superior a alguém, apenas pode apresentar algumas características diferenciadas e/ou mais adequadas a determinada situação, num específico momento. Este é um dos motivos pelos quais o indivíduo não se compromete com a mudança. Por que iria mudar? É superior! Por isso, vive numa espécie de areia movediça, aprisionado nas suas crenças delusórias. E o que é pior: adora “culpar” os outros, sempre se esquivando da própria ignorância. Funciona, portanto, como um mecanismo inexorável de defesa, agindo como um catalizador de sabotagem interna, que veda o discernimento e provoca um desejo implacável de manutenção das estruturas mentais existentes; tudo acontece como num passe de mágica, na melhor expressão do feitiço que se volta contra o feiticeiro.

O orgulho também pode se inspirar nas circunstâncias simples e objetivas. As manifestações mais fáceis de serem encontradas são as que surgem como resultantes da aparência física, riqueza material (opulência), intelecto (erudição) ou, até mesmo, uma suposta hierarquia espiritual. Nas minhas andanças, conheci muitas pessoas consideradas ‘mestres’ ou ‘gurus’ pelos discípulos, que se mostravam completamente orgulhosas, envaidecidas por seus títulos ou posições, incapazes de perceber a própria armadilha. O intelecto deve ser usado para transformar o conhecimento, não para se apegar a conceitos e julgamentos. A compreensão intelectual deve servir para gerar novas competências, visando ao bem-estar consciente, à qualidade de vida. É preciso ficar atento ao processo delusório, pois ele é bem estruturado e sutil, e deve ser muito bem mapeado para que seja diluído. Entretanto, as inspirações mais estratégicas (subjetivas) e aflitivas do orgulho advêm da defesa de percepções formatadas, de obsessões previamente estabelecidas, sendo isto um gigantesco obstáculo ao exercício virtuoso do diálogo e, consequentemente, à pacificação da mente.

Sendo assim, o orgulho talvez seja o sentimento aflitivo mais sutil de ser analisado, devido ao fato de que existe uma ‘aura protetora’ ao redor dele. Sim, dificilmente as pessoas o reconhecem como um veneno mental, demonstrando um comportamento oposto: “tenho orgulho dele/dela/disso/daquilo”, sem contar os corriqueiros hábitos da cultura popular cantados em prosa e verso como o exagerado “Abençoados por Deus!” ou o melancólico “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Aliás, o conceito mais sublime que já li sobre o amor se refere a um desejo de que todos os seres sejam felizes e que possam atingir as causas que geram a felicidade; isso requer sabedoria para entender que qualquer sentimento de superioridade é inversamente proporcional à felicidade. Por conseguinte, temos um sutil desconhecimento conceitual, numa inversão de valores. Sem dúvidas, é um veneno totalmente enraizado na sociedade brasileira, uma atitude absolutamente desnecessária e prejudicial.

Além disso, é fundamental nos conscientizar de que a ação verbal é uma consequência da ação mental (intenção); se falo algo, é porque penso daquela forma, mesmo que não consiga reconhecer esse processo. Precisamos refletir sobre a qualidade dos nossos desejos e também apurar o conhecimento sobre a etimologia das palavras, procurando não confundir o sentimento aflitivo do orgulho com alegria, amor próprio e autoestima, atitudes fundamentais relacionadas com o bem-estar, confiança, assertividade, reconhecimento e desenvolvimento das próprias qualidades e limitações.

Desse modo, é um sentimento aflitivo que se propaga através de inúmeras variantes: ostentação, teimosia, egocentrismo (egoísmo), vaidade, arrogância (prepotência), soberba e narcisismo. O egoísmo é um veneno secundário cujas ações se direcionam para o ‘eu’, pelo ‘eu’ e com o ‘eu’. As pessoas egocêntricas se sentem, de fato, inseguras e se comportam com base no seu próprio centro, como forma de autodefesa, numa tentativa de ocultar suas carências emocionais. A vaidade é uma forma de egocentrismo, onde se exacerba o valor da própria ação. O foco é exclusivo na opinião dos outros, usados como modo de valorizar o próprio ego: o indivíduo precisa do outro para ratificar a própria perfeição. A arrogância possui laços fortes com a agressividade, futilidade, teimosia e a vaidade, produzindo aversões a ideias alheias, fortalecendo os próprios apegos em direção a um autoaprisionamento. A soberba é uma manifestação de orgulho exacerbado, num pedestal de completa autossuficiência: ocorre a presunção de que os outros são inferiores, por meio de conceitos e julgamentos inflexíveis, explícitos e determinados. A grosso modo, o narcisismo é um processo onde o prazer é centrado no próprio corpo, sem que se consiga viver, aceitar e trabalhar com as diferenças. Todas essas intercorrências são consequências e passam, imutavelmente, pelo orgulho.

É importante perceber que seus malefícios não atuam imediata e diretamente, como a raiva, mas implicitamente, por meio de outros venenos. Essas concepções equivocadas bloqueiam possíveis progressões e ofuscam a vivência dos anos; é como despejar água num vaso virado, ou mesmo, vestir a capa do Super-Homem e se atirar do vão central da ponte Rio-Niterói. Ele, primeiramente, ‘engrandece’, nos eleva às alturas, para depois nos derrubar sem qualquer compaixão. Efetivamente, o orgulho emburrece até as mentes mais brilhantes, como diz o ditado popular.

Em resumo, o orgulho é um veneno extremamente dissimulado, pouco evidente e, por isso, avassalador; uma atitude delusória que faz com que alguém se considere superior aos outros, inflando sua condição. Tratar o orgulho é como lidar com as próprias carências emocionais; só se transforma por meio da inteligência intrapessoal (autoconhecimento). Para que se possa cessar ou mesmo reduzir os efeitos deste veneno, é necessário efetuar um exercício meditativo constante sobre o que desejamos enxergar, o que não conseguimos ver, empatia (colocar-se no lugar dos outros), integridade (habilidade ser honesto e admitir as próprias limitações), resiliência, diálogo (saber ouvir, refletir e se posicionar sem discordar), além da análise precisa sobre nossos agregados psicofísicos. A prática de concentração meditativa abrange, além de determinação, paciência e disciplina, memória ativa, introspecção, contemplação e análise, num fluxo virtuoso que fomenta a transformação do conhecimento tácito em explícito, e vice-versa. Pois é, como afirmara o magnífico Georges Bizet em sua Carmen “Prends garde à toi!

Niterói, 5 de setembro de 2017

Wilson M. Moura

Contato para palestras: will@wilsonmmoura.com

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Eu atuo como strategic thinker, palestrante, mentor e escritor, com o propósito de viabilizar pessoas e organizações a projetar estratégias de mentalidade de crescimento, maturidade emocional e a pacificação da mente, assim como otimizar metas e investimentos, vivenciar experiências transformadoras e de autorrealização.

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