S DE SIMPLICIDADE

Wilson M. Moura Ξ August, 10th 2019

Sempre apreciei a simplicidade, porém, nunca havia trazido o foco da minha atenção para a sua significância e respectiva abrangência. Simplificar significa tornar as ações mais lúcidas, menos complicadas, porém, não há uma definição única e singular da simplicidade. Fazer uso de ações simples é um objetivo muitas vezes bem complexo, já que o modo de funcionamento da mente é bastante heterogêneo e bem estruturado nas incessantes atividades mentais. Desta forma, refletir sobre a simplicidade implica analisar as necessidades fundamentais da vida.

Vivemos num mundo metódico e contextual, repleto de aflições, mas este quadro representa um desafio e, ao mesmo tempo, é motivo virtuoso para praticar a simplicidade. Exatamente por isso, é princípio norteador e facilitador, com múltiplos caminhos e infinitas possibilidades. Contudo, por mais paradoxal que possa parecer, a simplicidade é uma das expressões da criatividade e da liberdade consciente e precisa de certas condições para se exprimir. Necessitamos criar um espaço mental para apreciar e designar as questões fundamentais da vida e, logicamente, nos livrarmos das ações desnecessárias. Amargamente, entulhamos a mente com ideias, pensamentos e emoções sem quaisquer motivos conscientes e necessários, o que provoca a delusão de que a mente é limitada e não possui espaço maior para agir.

A mente acumula tanto lixo que passa a focar preocupações e aflições, bloqueando a criatividade. Seria como não abrir a caixa postal eletrônica durante um mês: ao abri-la, talvez tivesse tantos spams que provavelmente não teria como separar o que é importante do que é inútil. À medida que fazia esse paralelo, atinei que necessitava exercitar a atenção seletiva sobre quais eram os objetivos essenciais para mim, começando pelas ações mais complexas do dia a dia. Refleti sobre a quantidade de demandas e o baixo grau de eficiência das conjunturas confusas e complicadas. Quanta energia eu gastava quando agia a partir de emoções aflitivas? Quais os efeitos desses comportamentos complicados? Conclusão: a ausência de simplicidade produz uma infusão permanente de novos desejos, gerando apegos e aprisionamentos.

Não há um caminho único, mas a trilha da simplicidade passa pela escolha daquilo que não traga efeitos complexos, condicionados e aflitivos. Enquanto analisava este tema, percebia o hábito de gerar pensamentos inócuos e perturbadores e que, quanto mais ações a mente gera, mais responsabilidade e menos liberdade possui, num comportamento condicionado, que não faz o menor sentido. Por isso, a simplicidade é inversamente proporcional às preocupações, aos anseios e estímulos: quanto mais complexas, maiores serão as demandas.

Por conseguinte, a simplicidade é uma das ações mais inteligentes que podemos realizar. Recordei-me, imediatamente, do genial pensador italiano Leonardo da Vinci, que no século XV nos oferecera a deliciosa reflexão: “a simplicidade é o último grau de sofisticação”. Esta conclusão fez com que eu desse uma boa relaxada na cadeira, ao constatar que as coisas são simples e espontâneas por natureza. Somos nós que as complicamos, numa clara evidência do processo de criação e ocultação gerado pela ignorância mental condicionada. Comecei a pensar em como nós, humanos, temos a tendência de complicar os fatos e transformá-los em ‘problemas’, sem conseguirmos descortinar o grau de liberdade e de neutralidade inerente aos fenômenos. É uma espécie de desculpa alicerçada na própria ignorância, na incapacidade de compreendermos os acontecimentos como são. Lembrei-me de dois exemplos objetivos. Temos duas certezas na vida: precisamos respirar para nos manter vivos e o corpo físico morrerá um dia.

Pois bem, usualmente dificultamos ambas as verdades, já que a maioria da população não respira corretamente, assim como teme a morte. São dois fatos simples, óbvios e objetivos, mas processados na mente com extremo grau de complicação e aprisionamento. Passei a simplificar meus afazeres e a experimentar os incomensuráveis benefícios da simplicidade. A natureza da mente é simples, consequentemente, a felicidade é um sentimento simples. A nós a missão de averiguar.

Niterói, 10 de agosto de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências.

Mais sobre mim
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Fator Zen - Um Convite à Paz Interior

Informe-se sobre o conteúdo do livro e receba-o em casa, autografado.

Deixe uma resposta