PERCEPÇÕES DELUSÓRIAS

Wilson M. Moura Ξ November, 5th 2019

Uma das características principais da ignorância mental condicionada são as percepções ou visões delusórias, simbolizando a compreensão distorcida dos fenômenos, com cinco aspectos de análise.

O primeiro deles é o que reivindica a existência inerente de um eu — Eu existo! — como se nossa vida existisse por si só, sem causas geradoras e circunstâncias específicas. Explicando por outro prisma, é uma maneira de fixação mental na existência do ‘eu’ de forma absoluta. Esse aprisionamento em um eu supostamente verdadeiro surge a partir de um ciclo causal e condicionado, com base no corpo físico e seus agregados psíquicos (sensações, percepções, estruturas mentais e condicionamentos).

Como consequência, e de maneira inconsciente, as concepções do ‘eu’ e do ‘meu’ irão aflorar com toda intensidade, na forma de ‘eu’ existo, ‘eu’ quero continuar existindo permanentemente, ‘meus’ parentes, ‘meus’ amigos, ‘minha’ mulher, ‘minhas’ posses, ‘meu’ cargo, isto é ‘meu’, e assim vai.

Pronto, é um tal de ‘eu’ para lá, ‘meu’ para cá, que configura uma sensação totalmente distorcida da felicidade, pois, de fato, o que está por trás da cortina se chama sofrimento. Nossa mente grosseira se apega ao sentimento de posse e, o que é pior, tenta mantê-lo sob sua custódia, a qualquer custo, não conseguindo enxergar que a criação do ‘eu’, do ‘meu’ e de todas as outras coisas depende de causas e circunstâncias. De forma contrária, esse processo delusório pode gerar uma série de complicações, fazendo com que o pensamento se estruture e se solidifique com base em percepções delusórias, com muitas delusões.

É claro que essas questões tão sutis e imperceptíveis não são facilmente assimiladas no curto prazo, mas com o auxílio do discernimento, paciência, perseverança e flexibilidade mental, somos capazes de descortinar os pontos mais evidentes, até que consigamos entender os aspectos mais enigmáticos. Seria mais ou menos como num jogo de xadrez, em que pouco a pouco passamos a entender os movimentos de cada peça.

A compreensão do segundo aspecto das visões delusórias adiciona uma boa pitada de dificuldade e reflexão, pois se relaciona com a aceitação da concepção delusória como sendo real ou absoluta, ou melhor, que eu poderia perceber algo delusório como sendo absoluto, numa inversão de valores; por exemplo, considerar que a existência do ‘eu’ seja absoluta. Neste momento, surge um mecanismo mental de ocultação, que inibe a compreensão de que os fenômenos são uma mera projeção da mente, destituídos da realidade em si mesmos; não conseguimos enxergar que o condicionamento mental cria sua própria realidade.

O terceiro aspecto, ainda mais intrigante para a mente ocidental, é a percepção radical ou extremista, numa explícita inabilidade de analisar a regra elementar da impermanência. Aqui é fundamental rever nossos conceitos sobre duas especificidades radicalistas e opostas: ou tudo é permanente ou tudo deixará de existir. A concepção delusória de que os fenômenos são permanentes é uma tendência materialista que interpreta como permanente o que, de fato, é impermanente, e a formulação delusória segundo a qual o eu e os objetos existem por um tempo determinado e, quando este tempo se extinguir, tudo deixará de existir; trata-se de uma tendência niilista, que expressa o radicalismo com base na extinção total da existência: após a morte tudo deixa de existir.

O quarto aspecto das percepções delusórias consiste em utilizar a disciplina com propósitos não virtuosos. Bons exemplos disso são abstinência, autoflagelação, andar ou deitar-se sobre pregos, sacrificar animais acreditando ser uma prática benéfica ou, em casos radicais, praticar o suicídio. Esses comportamentos não facilitarão a cessação do ciclo de sofrimento, muito pelo contrário.

Finalmente, o quinto aspecto diz respeito à negação da existência de algo que existe, como, por exemplo, negar que existam regras fundamentais na natureza ou não aceitar que a cessação do ciclo de sofrimento seja possível.

O fato é que nossos sistemas vigentes, sejam culturais, sejam educacionais, não focalizam estes aspectos, tão relevantes no que tange ao bem-estar e a pacificação da mente. É o momento de nos utilizarmos dos preciosos poderes da paciência e da concentração meditativa, sempre bem-vindos.

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, mentor, escritor e mestre em meditação, especialista em mentalidade de crescimento e pacificação da mente.

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