PELAS BARBAS DE NETUNO!

Wilson M. Moura Ξ April, 19th 2016

A deslumbrante mitologia grega nos introduziu a figura do poderoso Poseidon, deus das águas subterrâneas e submarinas. Os romanos se espelharam nos gregos e criavam suas fábulas com Netuno, simbolizando-o como um homem vigoroso, com uma longa e espessa barba, ostentando um arpão com três pontas, chamado de tridente. O tridente de Poseidon (Netuno) também tinha o poder de instituir calmarias, agitações e impermanências.

Era um instrumento de poder, utilizado por várias deidades significativas. No hinduísmo, o tridente do deus Shiva — trishula em sânscrito — pode ser interpretado por meio de diferentes tríades: criação, preservação e destruição; inércia, movimento e equilíbrio. Na religião cristã, o tridente simboliza a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Já de acordo com as tradições do Candomblé e da Umbanda, Exu, orixá da comunicação desse mundo com o dos deuses, se utiliza de um tridente, representando a energia tripolar (positiva, negativa e neutra). O tridente também se faz presente no poema épico do rei tibetano Gesar, exprimindo as três jóias budistas: Buda, Darma e Sanga.

Não por acaso, o símbolo da psicologia é representado por um tridente, inspirado pela vigésima terceira letra do alfabeto grego, denominada “Psi”. Sigmund Freud interpretava suas três pontas como id (princípio do prazer), ego (o eu, a manifestação existencial e suas interações) e o superego (princípio do dever). Sem qualquer coincidência, a psicologia apresenta três correntes psicológicas: o humanismo, a psicanálise e o behaviorismo (terapia cognitiva comportamental). Em todos os casos, existe uma evidente coerência entre as diversas linhas, significando o poder do equilíbrio entre os extremos, por meio do livre arbítrio. Portanto, os tridentes são símbolos de integração e união, de universalidade, unidade.

E como necessitamos de um poderoso tridente neste momento. Estamos num processo lerdo de amadurecimento, onde a energia negativa gira implacavelmente, sem que seja transformada em positiva. Existe uma luta inconsciente e incessante entre o prazer e o dever, mas ainda com uma larga vantagem para o prazer, que exerce uma relação direta com o descomprometimento e a desagregação. O orgulho exacerbado inibe o discernimento, a visão sistêmica e, consequentemente, a geração de soluções que possam beneficiar a todos, de maneira eficaz e eficiente (fazer as coisas certas de maneira certa). Há uma insensatez transparente, que inibe uma reflexão sobre alguns aspectos efetivamente necessários: coerência, relevância e prioridade.

No caminho da imaturidade emocional e irresponsabilidade pessoal e cívica, às vezes acho que boa parte do povo brasileiro gostaria de se agarrar nas barbas de Netuno, e se salvar do mar de mediocridades reinante, tal qual os navegantes dos mares enfurecidos de outrora. Outros se pendurariam no poder da disciplina e transformação de Exu, na energia criativa de Shiva, ou mesmo na escassa barba do ‘tio’ Freud, transportando toda a responsabilidade conjuntural para o astral ou nos defeitos dos outros.

Mas será que essas seriam as únicas coisas para nos agarrar? Como seria saudável se pudéssemos nos proteger na tríade coerência, relevância e priorização. Porém, ao contrário, nosso sistema de vida é completamente incoerente e sem fineza. Por quê? No Brasil, pregamos uma tal de democracia, porém nem sabemos ao certo a abrangência do seu significado. Mas é interessante notar que, assim como nos tridentes, o algarismo três também possui sua simbologia: temos três elementos integrantes do Estado (território, povo e soberania) e três poderes constituídos (executivo, legislativo e judiciário).

Contudo, neste sistema político de exercício de poder, é de total relevância que o povo e seus representantes tenham conhecimentos, habilidades, atitudes e comportamentos que possam efetivamente construir uma nação sólida. Caso contrário, a democracia se introduz como um sistema de governo totalmente insensato, incoerente e irrelevante, produzindo inúmeras consequências. A sociedade não se compromete com a geração de ideias nem com a solução dos problemas; não se organiza, nem realiza concílios para debater os destinos do país. Não toma ciência das suas responsabilidades e irresponsabilidades, ignorando completamente as receitas, despesas e balanços das contas públicas. Prefere, literalmente, bancar corjas e badernas institucionalizadas, idolatrar a insensatez e cultivar estórias como Sodoma e Gomorra, com seus pecadores e indivíduos ávidos pelo poder.

Pelas barbas de Netuno! Após 519 anos de descobertas e amplo sofrimento, a cultura brasileira já deveria ter aprendido a construir e emponderar seu tridente, visando combater eventuais monstros marinhos ou seres abissais. Mas, para que isso fosse possível, teríamos que acionar uma outra poderosa tríade: discernimento, consciência e vontade, aspectos ainda muito longínquos no nosso linguajar. Não tenho barba, mas vou parafrasear um delicioso ditado popular, ‘deixar minhas barbas de molho’, e continuar alerta. É apenas uma ideia, um exercício paciente de cidadania e livre arbítrio, tentando aprender a lidar com meu tridente.

Niterói, 19 de abril de 2016

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência cognitiva e emocional.

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