PARÂMETROS CULTURAIS: DA JUSTIÇA A CLAVA FORTE

Wilson M. Moura Ξ September, 16th 2019

O uso das inteligências emocional e cognitiva nos propicia o desenvolvimento do pensamento crítico, visão sistêmica e coerência, fatores fundamentais para os que visam níveis superiores de qualidade de vida e alta performance. O Brasil apresenta sinais bem explícitos de incoerências que nos remetem frequentemente a questionamentos como qual é o país que desejamos, critérios de felicidade e satisfação, perspectiva futura, representatividade dos agentes políticos, práticas culturais virtuosas e responsabilidades individuais e sociais. Analisemos, pois, alguns dados estatísticos específicos inerentes à cultura brasileira.

Em agosto de 2018, o Indicador de Analfabetismo Funcional veiculou que 30% dos brasileiros são considerados analfabetos funcionais, isto é, não aprenderam o suficiente para ler, escrever, fazer contas, ou mesmo interpretar um texto. Concomitantemente, o índice atual de analfabetismo é de 6%. Portanto, temos 36% da população incapaz de pensar, refletir e tomar decisões ponderadas, que identificam os equívocos sucessivos na qualidade do ensino praticado.

O Spotify, serviço de streaming de música, podcast e vídeo, revelou informações nas quais 70% das músicas mais populares em 2018 são de sertanejo e funk, cujas letras e artistas, em sua esmagadora maioria, não introduzem pensamentos que agregam valor cultural ou reflexões evolutivas. Dentre as diversas redes sociais, as pessoas administram dezenas de grupos, entretanto sem conseguir produzir ideias transformadoras. O foco usual é o ‘eu’, quando deveria ser o ‘todo’. Temos um enorme desperdício de tempo e energia, além de nada produzir em caráter virtuoso.

Segundo recente pesquisa elaborada na Grã-Bretanha pela Sociedade Real para Saúde Pública (RSPH), o Instagram foi considerado a pior rede social no que concerne seu impacto sobre a saúde mental dos jovens, produzindo ansiedade, depressão, solidão, bullying, dentre outros transtornos mentais. Dados de 2019 indicam que a rede possui 69 milhões de usuários no Brasil, sendo o maior índice de engajamento dentre as redes sociais, atingindo 33% da população. O ponto de análise aqui é sua ausência de conteúdo virtuoso: o que vale é o umbigo.

As estatísticas da Receita Federal revelam que, desde 2010, uma nova organização religiosa surge a cada hora no Brasil, indicando nitidamente que a população prefere transferir as soluções de seus anseios e angústias para as ‘entidades divinas’, em detrimento do autoconhecimento e responsabilização individual e social. De outro modo, essa indústria gera quase R$ 30 bilhões anuais, legalmente livres de impostos, taxas ou procedimentos transparentes usuais e de prestação de contas. É a pura alusão da religiosidade sem nenhuma espiritualidade. Uma aberração intocável.

No segmento esportivo, assistimos a um espetáculo de cinismo, irresponsabilidade e corrupção em todas as Federações e Confederações, sejam federais, estaduais e municipais. O esporte que mais cresce oferece como atrações principais murros, cotoveladas, pontapés, desfigurações faciais e sangue em gênero, número e grau, numa clara adoração aos desafortunados gladiadores da Roma antiga. Os protagonistas esportistas raramente introduzem exemplos de cidadania ou valores virtuosos, ao contrário, exibem um canal inesgotável de egocentrismo, orgulho, prepotência e estupidez.

A palavra ‘luta’ é propagada e idolatrada como se fosse um ideal ou objetivo de vida. Num momento mais recente, alguns resolveram ressuscitar por meio do vocábulo ‘resistência’. Com efeito, ambos os termos são sobremaneira equivocados. Deveríamos estar multiplicando palavras como ‘união’, ‘adaptação’, ‘responsabilidade’ ou ‘comprometimento’, muito mais adequadas as nossas toscas circunstâncias. Definitivamente, não estamos vivos para lutar ou resistir, ao contrário, devemos nos entender, estar resilientes e empáticos.

No futebol, um dos ícones da cultura nacional, os Clubes vagueiam largamente entre a corrupção e a completa ausência de governança. Somente no Rio de Janeiro, a dívida acumulada de Botafogo, Fluminense e Vasco ultrapassa R$ 1,8 bilhão: são 3 entidades centenárias que se esforçam para reproduzir as mesmas práticas dos 3 Poderes da República.

Enquanto isso, a população encontra-se totalmente dividida em quatro segmentos: parte com tendências socialistas arcaicas e insustentáveis, parte com inclinações extremamente conservadoras, separatistas e religiosas, uma terceira quota letárgica, preguiçosa e significativa, sem qualquer engajamento, numa aceitação passiva do status quo e, por último, uma modesta parcela populacional alerta e comprometida com aspectos como integração, interação e desenvolvimento mental e emocional.

Não há, portanto, um posicionamento organizado, assertivo e transparente perante o Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais: a ausência de governança e a criação de práticas espúrias e corruptas é totalmente facilitada e cultivada, sem rodeios. Além disso, nossos intelectuais agem como semideuses, distantes, exibindo ideologias amplamente orgulhosas, egocêntricas e segregadoras: não inspiram ações transcendentais, nem dão exemplos a ser seguidos. Ainda não aprenderam que um dos segredos da vida é a transformação do conhecimento tácito em explícito, e vice-versa.

Podemos citar vários exemplos, que nos fazem constatar que a cultura nacional instituída produz delusões (quando você passa a acreditar que uma ilusão é real) ciclicamente, desatenções, análises equivocadas e múltiplas dispersões, construindo inquietações, distrações e excitações, quando deveria estar voltada para a geração de atitudes coerentes, ponderadas e serenas, base de uma mudança comportamental consciente. Existe uma espécie de adoração ao sofrimento, ao ato de resmungar e gerar temores, ao invés de semear autoconhecimento e boas práticas.

As soluções são complexas e simples ao mesmo tempo, contudo, passam necessariamente pelo aprimoramento de novas ideologias e competências, a partir de movimentos individuais, ou seja, de dentro para fora; só possuímos poder sobre nós mesmos. O momento é mais do que propício para entender o dinamismo e a interdependência das causas e consequências, ou talvez investir na criatividade com foco no desenvolvimento de novos sentidos de vida.

Como dizia Joaquim Osório Duque Estrada em 1909 “Se a clava (arma) da justiça se levantar, nenhum brasileiro vai fugir da luta. Pelo contrário, morrerá pela pátria”. Só nos resta esperar pela Justiça!

Niterói, 16 de setembro de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências.

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