PARADIGMA DE INSENSATEZ

Wilson M. Moura Ξ November, 14th 2017

Na série de gravuras Los Caprichos, 1793-1796, o pintor espanhol Francisco de Goya retrata um dos paradoxos mais apaixonantes da vida. No Capricho de número 43, intitulado ‘O sono da razão produz monstros’, ele faz uma crítica sobre a sociedade espanhola (educação, religião, nobreza, prostituição, modo de vida) com um olho na Santa Inquisição, tentando desmascarar todos os seus monstros. A gravura expõe um artista, abstraído num sonho sobre sua mesa de trabalho, prestes a ser atacado por criaturas perturbadoras da noite, simbolizadas por morcegos, corujas e um felino negro, suas próprias obsessões. Ele procura destacar o poder da razão sobre a escuridão da ignorância, elaborando uma elucidativa frase: “A imaginação abandonada pela razão produz monstros impossíveis; quando está unida, é a mãe das artes e da fonte de suas maravilhas”.

Já o escritor indiano Salman Rushdie também nos brinda com uma eloquente reflexão com o romance ‘Dois anos, oito meses e 28 noites’, fazendo alusão a uma princesa do mundo da fantasia que se apaixona por um filósofo racional e, no seu contexto, mostra uma relação paradoxal entre ambos. Salman Rushdie aborda a disputa razão e fé, efetuando um raciocínio sobre o conflito entre racionalidade e fanatismo. Numa analogia causal com a obra de Goya, Salman assinala que hoje vivemos em um tempo de monstros, acrescentando que muitos são os países onde a razão encontra-se adormecida. Enfatiza que quando razão e fantasia andam juntas, pode haver efeitos maravilhosos, porém, quando se separam, a resultante pode ser catastrófica.

Em ambos os casos, os autores nos convidam a refletir sobre a importância das relações entre nossas crenças e valores que, por sua vez, estabelecem conexões com nosso modo de vida, ou mesmo a forma com a qual estabelecemos as raízes da cultura de um povo, seus encantos e desencantos. Um convite aberto para meditarmos sobre o paradigma de insensatez que estamos a vivenciar. Talvez poderia me utilizar de outros adjetivos para conceituar nosso modelo de vida como curto alcance, limitação, estupidez, tacanhez, pequenez, incompetência, do menor esforço. O fato é que temos todas as condições de temperatura e pressão para nos tornar uma potência em todos os sentidos. Então, quais seriam os motivos inibidores? Por que não nos motivamos para efetivar uma genuína revolução em direção à modernidade, alinhada com qualidade de vida? Por que não nos utilizamos da simplicidade? Por que preferimos, usualmente, à ação do menor esforço, do mais fácil?

Existem 193 países-membros associados à Organização das Nações Unidas. Alguns adotam hábitos extremamente salutares e inteligentes. Basta copiá-los e adaptá-los. Sim, simplicidade, caríssimos irmãos, sem a presença do orgulho. Ao contrário, preferimos nos manter no ‘reclame aqui’, na ‘malhação do Judas’ ou nas intermináveis filas encontradas nos vãos da nossa sociedade. Por que nos espelhar na mediocridade, nos hábitos medianos, vulgares? Não seria interessante ampliar a visão e olhar para cima ao invés de manter a cabeça voltada para baixo? Limitações pessoais? Quais seriam? Não existe burrice, existe estupidez; há ignorância, ampla.

Nosso sistema de vida é baseado na burocracia, incompetência, lerdeza, indolência, ineficácia, ineficiência e conveniência oportunista. Além disso, nossas Instituições são gerenciadas por pessoas indicadas politicamente, não pela meritocracia; até as maiores patentes das Forças Armadas são cargos políticos. São hábitos incorporados pela sociedade há séculos que insistem em continuar atuando.

No Brasil a tripartição de poderes existe de direito e de fato. Nossos Poderes são tidos como independentes, como se a natureza nos oferecesse algo independente: utopia absoluta! São autônomos, sim, porém não trabalham de forma harmônica, mal dialogam entre si e pouco exercem suas funções genuínas. Trabalham em desacordo. O Executivo não administra o que deveria gerenciar: eficiência e eficácia parecem ser aspectos impeditivos. O Legislativo raramente legisla para o povo, usualmente em causa própria. A Justiça é injusta, sem celeridade,apenas premia a melhor estória, contada por quem tem mais dinheiro.

Aliás, eu juro que gostaria de entender a hermenêutica do Judiciário. Se bem entendo, um advogado tem o “poder” de mentir perante os tribunais sob o argumento de direito de defesa ou acusação? Nunca cursei uma faculdade de direito, mas seria bom saber quantos créditos de artes cênicas existem. Basta analisarmos o último texto constitucional, elaborado com a colaboração de eminentes juristas, com farta proteção aos poderes judiciário e legislativo: votos secretos, proteção judicial, centenas de mordomias, discricionariedades, amplos poderes para indicar servidores nos 3 escalões, entrar em presídios sem ser vistoriados e por aí vai. Uma farra total. Sem contar a Ordem dos Advogados do Brasil, uma instituição sui generis. Não possui sistema de pesos e contrapesos, não existem órgãos que a supervisionem, não prestam contas a ninguém. Em suma, faz o que bem entende, num caminho oposto à transparência. Existem advogados criminalistas que executam suas funções como exímios atores e deveriam concorrer ao “Emmy Awards”, nas categorias comédia e drama. Os constitucionalistas são confusos, pouco assertivos e dificilmente introduzem soluções eficazes, dando a impressão de que, no fundo, tendem para políticos profissionais. Sem contar que o sistema republicano não propõe uma reflexão entusiástica sobre o abuso do poder, ignorando totalmente as dicas do mestre Charles-Louis de Secondat, conhecido no século XVIII como barão de Montesquieu.

Como alterar este status quo? Como lidar com pessoas que dizem querer evoluir, mas se recusam a reconhecer suas imperfeições? Existem sete ações urgentes a serem praticadas: responsabilidade, disciplina, interação, integração, comprometimento, humildade, integridade. São as antíteses dos pecados capitais do povo brasileiro. Paralelamente, necessitamos aprender a priorizar.

É fundamental nos conscientizarmos de que temos todas as condições para mudar esse modelo, porém precisamos entender claramente o significado genuíno destes aspectos e implementá-los no cotidiano, sob pena de continuarmos vivenciando em consonância com critérios insensatos, tacanhos. Ou será que desejamos continuar a nos espelhar nas regras medianas? Precisamos analisar com carinho os motivos pelos quais raramente optamos pelas melhores práticas internacionais. De maneira oposta, nos particularizamos na pequenez, ignorando os auspiciosos versos do nosso hino: “Deitado eternamente em berço esplêndido. Ao som do mar e à luz do céu profundo. Fulguras, ó Brasil, florão da América. Iluminado ao sol do Novo Mundo!”

Seria nossa vocação a de iluminar o mundo? Temos alguns poucos bons exemplos florindo, mas é necessário transformá-los visando uma condição majoritária. Precisamos inventar um compactador de estupidez, um detector automático de ações tacanhas no intuito de escolher as melhores práticas e comportamentos. Fundamentar a educação no desenvolvimento de novos valores e da disciplina.

Só me resta parafrasear o filósofo Marcio Tavares D’Amaral ao citar palavras do sábio Heráclito “O contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia”. Sem a paixão da verdade, a ignorância se torna uma natureza, e os ignorantes mais espertos levam os outros na conversa. Mas o excesso de paixão cega.

Aos que integralmente procuram outros caminhos, boa jornada!

Niterói, 14 de novembro de 2017

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências comportamentais.

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