OS REIS LOUCOS

Wilson M. Moura Ξ March, 30th 2020

Jean-Paul Sartre afirmava que “Viver é um exercício de equilíbrio constante entre nossas escolhas e suas consequências”. Pois bem, vimos assistindo a uma guerra de interesses, onde os ignorantes com educação se digladiam contra os ignorantes sem educação: nesse meio amplamente profano e obscuro, não há indícios de sabedoria. As grandes forças se exercitam por meio dos jogos econômico/financeiros de poder, tentando preservar seus impérios, a qualquer custo.

Nosso presidente, Jair Bolsonaro, foi a ferramenta viável para extirparmos o câncer da corrupção geral e irrestrita instaurada no país que, queiramos ou não, provocou a morte indireta de milhões de brasileiros, seja de fome, seja de desgosto. Contudo, ele nunca foi solução. É um ogro, um imaturo, incapaz de introduzir ideias que inspirem, unam e agreguem. Assemelha-se a uma criança na fase genital, tamanha é a sua imaturidade. Não creio que ele tenha más intenções, mas possui crenças, valores e costumes amplamente tacanhos. Sua volúpia — para não dizer obsessão — pela trilogia igreja evangélica, agressividade e soberba é absurdamente explícita e veda suas qualidades como automotivação, disciplina, coragem e firme determinação. Ele é um idealista, porém acaba praticando um sincericídio, devido ao seu orgulho e prepotência, que inibem a sua visão de si mesmo e de mundo. Desse modo, não tem competência liderar uma nação rumo à mudança social que tanto necessitamos.

Por vezes, Bolsonaro me faz lembrar de alguns reis loucos como o obsessivo Frederico I da Prússia ou do excêntrico Nabonidus da Babilônia, que vivia escondido num oásis na Arábia enquanto seu filho administrava o reino. Nadir Shah da Pérsia era obcecado em descobrir conspirações. Na Inglaterra, tivemos o Rei Jorge III que precisou ser isolado em seus últimos anos, conforme sua loucura crescia, além do Rei Henrique VI, cuja vida foi tema principal de uma peça de Shakespeare. Sem contar a nossa conterrânea, mãe do Rei Dom João VI, Rainha Maria I, cujo fervor religioso e a perda do marido e filho provocaram reações totalmente desequilibradas.

Sim, estou dedicando meu tempo para escrever sobre o Bolsonaro, contudo, se formos analisar nossos ex-presidentes da República desde 1988, não encontraremos um único indivíduo exemplar, muito pelo contrário. Eu poderia ficar dias escrevendo sobre suas peripécias mirabolantes. Hora mais do que apropriada para nos lembrar do grande Winston Churchill “Quando estiver indo pelo inferno, continue indo”.

Então, continuemos indo pelo inferno. Devido a sua ideologia e comportamento, Bolsonaro provocou a ira de um feroz inimigo: começou a disparar contra o maior conglomerado midiático da América Latina, com faturamento aproximado de R$ 20 bilhões, que os coloca entre os vinte maiores o mundo. O Grupo Globo sozinho é maior do que os três outros concorrentes (SBT, Abril e Folha): um verdadeiro Império! Não obstante, movido pela sua mentalidade imatura e egocêntrica, Bolsonaro passou a demonizar “toda a imprensa”, fornecendo todas as armas a Globo.

Mas, e então? O Grupo Globo seria a Chapeuzinho vermelho, sendo Bolsonaro o Lobo mau? É claro que não! Assim como o presidente faz opções equivocadas como as escolhas dos ministros da Educação, Meio Ambiente, Cidadania, Direitos Humanos, Relações exteriores e Turismo, também efetuou acertos nas Pastas da Economia, Saúde, Minas e Energia, Infraestrutura, Desenvolvimento regional, Justiça e Agricultura. Temos, sim um governo técnico, que, no geral, faz um ótimo trabalho.

Da mesma forma, o Grupo Globo produz movimentos de gangorra. Na área de dramaturgia, tivemos produções do mais alto nível, entretanto, a maioria delas são fraquíssimas, sempre com o teor vilão x mocinho x traição x vingança. A criatividade efetiva é relegada a terceiro plano, mantendo-se um padrão baixíssimo, tanto educacional quanto cultural. A ordem é cultivar uma rede de “globais”, famosos, egocêntricos, milionários, sem qualquer agregação de valor cultural.

No Entretenimento, optam pela exibição de programas vulgares e apelativos como ‘Domingão do Faustão’, ‘Caldeirão do Huck’, ‘Big Brother’, ‘Vídeo Show’, e outra infinidade de baboseiras nos Canais GNT e Multishow, desprovidos de qualquer propósito virtuoso.

Elogios devem ser feitos a alguns excelentes programas do Canal Futura como, por exemplo, “Experimentos”, “Viver Ciência”, “Show da História” e “Alfabetismo Brasil”, dentre outros. Porém, é importante ressaltar a falta de interesse em tornar relevantes os programas educativos.

Mas é no Jornalismo que o Grupo Globo evidencia sua ideologia, inverte seu ofício, e institui o paradigma “influenciar o povo”, ao invés de informá-lo. Exerce enorme autoritarismo, propõe pautas paupérrimas, tenta impor suas convicções, excluem o contraditório e, via de regra, entrevistam personagens que estejam de acordo com seus editoriais. A maioria de seus jornalistas efetuam juízos de valor sem considerar o divergente, e muitas vezes repletos de caretas patéticas e gestos piegas. Se proclamam defensores da democracia, mas repudiam ideias contrárias àquelas determinadas por suas chefias de redação. São obcecados pela manutenção da audiência e do seu Império, a qualquer custo, seja pela dúvida e/ou crítica negativa, nunca pela projeção do pensamento crítico. São aspectos latentes na cultura Globo, tais quais os praticados astuciosamente nos corredores dos palácios de Suas Majestades.

Nesse cenário, escolheram um único vilão e, deliberadamente, permitem que todos os outros milhares de vilões, sejam do Judiciário e do Legislativo, escapem a céu aberto, “sem que suas câmeras vejam”. O lema parece ser “acabar com o inimigo e esquecer os que não nos atacam, mas mantendo um amplo dossiê sobre os mesmos”. Já repararam que nunca lançam críticas negativas contra Juízes e Desembargadores? Lacrimosa, diria o mestre Mozart!

Portanto, temos vários pontos de intersecção em ambos os lados. Orgulho, egocentrismo, avidez e imaturidade se fazem amplamente presentes: aqui não existem heróis, mas interesses econômico/financeiros. Nesse ambiente não há equilíbrio entre Id’s, Egos e Superegos, onde os súditos se digladiam de forma contínua, exatamente como nas cortes monárquicas. O objetivo é o mesmo e chama-se “poder”, com ideologias e comportamentos distintos. Devido a formação intelectual dos seus dirigentes, além da sua abrangência e peso, o Grupo Globo deveria fomentar a expansão da consciência, proporcionando uma cultura de qualidade, visando a pacificação da nação. Daí a importância em produzirmos crenças, valores, intenções, hábitos e comportamentos ponderados e equânimes. Precisamos nos conscientizar sobre cada um desses componentes e desenvolvê-los.

De fato, 486 anos se passaram e nós continuamos na mesma vibe das capitanias hereditárias, onde as grandes fortunas ditam as regras, estabelecem os jogos de poder, e a população continua apanhando, impavidamente. Não há interesse no aprimoramento cultural: é proibido pensar! Tudo como dantes, no quartel de Abrantes!

Niterói, 30 de março de 2020

Wilson M. Moura

Contato para palestras: news@wilsonmmoura.com

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Eu atuo como strategic thinker, palestrante, mentor e escritor, com o propósito de viabilizar pessoas e organizações a projetar estratégias de mentalidade de crescimento, maturidade emocional e a pacificação da mente, assim como otimizar metas e investimentos, vivenciar experiências transformadoras e de autorrealização.

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