OH TEMPOS; OH COSTUMES!

Wilson M. Moura Ξ September, 9th 2019

“O Brasil não terá transformação rápida por vias democráticas”. A declaração de Carlos Bolsonaro evidencia 2 questões, sendo que a primeira é que ele tem razão. O Brasil continua acorrentado à tacanhez: não existem líderes capazes de inspirar mudanças inteligentes e sustentáveis, nossas leis beneficiam explicitamente os mais ricos, assim como não possuímos pilares culturais ponderados e sadios para clamar por alterações efetivas. Na minha visão, o vereador supracitado não possui credenciais específicas para exercer cargos públicos, contudo não quer dizer que não possamos refletir sobre suas colocações.

A democracia brasileira não se consubstancia na qualidade, ao contrário, demonstra uma relação absurdamente ineficiente e ineficaz. A relação arrecadação versus gasto público é uma referência do que não deve ser feito. Somos um benchmark internacional de ausência de governança, burocracia, irresponsabilidade cívica, corrupção e incompetência.

O Estado brasileiro é letárgico, preguiçoso, expert em distribuição de prerrogativas, custos elevadíssimos, ausência de planejamento e efetividade, num verdadeiro espetáculo de insensatez: age sempre da mesma maneira e propaga resultados diferentes, em uma evidente inversão de valores e crenças. Necessitamos elevar a visão, arquitetar, construir, conceber novos projetos, consistentes, saudáveis e livres de ranços, nunca permanecer eternamente na retórica de reformas: é um equívoco grave, lugar-comum na cultura brasileira, cujo hábito é abstrair costumes relevantes e necessários.

Uma vez analisada a primeira questão, nos deparamos com a segunda, ou seja, como provocar as transformações necessárias. Nosso sistema político, democracia capitalista, é o menos pior da história, contudo, longe de ser o melhor; muito arcaico para o século XXI. Ela necessita estar aliada à qualidade e à competência, caso contrário, torna-se estúpida, incapaz de satisfazer as necessidades prementes. É o caso brasileiro, pois produz uma sociedade insatisfeita e inconformada, quando deveria ser o contrário.

O poeta argentino Jorge Luis Borges já antevia que a democracia, tal como é apresentada, é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria, sendo que a maioria é formada por imbecis. É bem verdade que nosso hermano tinha uma tendência depressiva, mas também um elevado senso de pensamento crítico. Porém, assim como ele, o jornalista Henry L. Mencken também ponderava sobre o populismo implícito nesse sistema de governo “Democracia é a arte de administrar o circo a partir da jaula dos macacos”.

Com efeito, basta atentarmos para os 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas. Quantos deles possuem condições adequadas de bem-estar e prosperidade? Ao efetuar um exercício prático leigo, vemos que a sociedade mundial não consegue produzir mais de 25 países com circunstâncias adequadas em qualidade de vida. Convenhamos: 13% é um percentual baixíssimo.

Ademais, a revista The Economist elabora o Índice da Democracia, abrangendo 167 países, dos quais 11,4% possuem democracia plena, 34,1% democracia imperfeita, 23,4% regimes híbridos e 31,1% com regimes autoritários. São dados assombrosos, que comprovam a incompetência cultural mundial em produzir virtudes: China, Singapura, sistemas xiitas, sunitas, coreano do norte, russo, além de 28 monarquias atuais. Sem contar as permanentes ambiguidades relacionadas ao Equador, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Cuba, Venezuela, Turquia, Hungria, Polônia, dentre outras loucuras.

Enfim, “Oh tempos! Oh costumes!” — “O tempora! o mores!” — bradava o filósofo político Marco Túlio Cícero contra a depravação (vícios e corrupção) de seus contemporâneos, em seu discurso no senado romano. Chegamos ao século XXI sem qualquer sinal de convergência, num amalgama de fortes dúvidas negativas, sem que consigamos encontrar vestígios de consenso rumo ao bem-estar, qualidade de vida e a pacificação da mente.

Paciência, necessitamos, pois!

Niterói, 9 de setembro de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências.

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