OBJETIVOS, MEIOS E FINS

Wilson M. Moura Ξ May, 30th 2016

Os meios justificam os fins?

O período das Cruzadas se estendeu durante quase 4 séculos e nos ofereceu um amplo material de pesquisa. Operações militares de grupos cristãos objetivavam ocupar a Terra Santa e mantê-la sob domínio cristão. Tivemos um movimento inicial, Cruzada popular ou dos Mendigos, onde crianças, mulheres e idosos eram instigados por um monge cristão a atuar como guerreiros: um desastre. A primeira Cruzada oficial obteve sucesso. O Papa Urbano II convocou e reuniu a nobreza europeia para combater e expulsar os ‘infiéis’ que ocupavam a Terra Santa. Décadas após, os muçulmanos reconquistaram o condado de Edessa, na Turquia, provocando uma segunda Cruzada, fracassada. Outras décadas se passaram e Saladino, poderoso sultão do Egito e da Síria, reconquistou Jerusalém dos cristãos de forma acaçapante.

Sentindo-se humilhado e com o orgulho exacerbado, o papa Gregório VIII incitou a terceira Cruzada, com a participação de três poderosos reis da Europa: Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra; Frederico Barbarossa, do Sacro Império Romano-Germânico; e Felipe Augusto, da França. Mais uma derrota para os cristãos, que, contudo, conseguiram assinalar um acordo de paz com Saladino. O mundo ainda assistiu a seis outras Cruzadas, com personagens de destaque como Frederico II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, do rei francês Luís IX, intitulado de São Luís, e o príncipe Eduardo I, da Inglaterra.

Moral da história: uma verdadeira insanidade, produzindo séculos de sangue derramado para justificar uma finalidade insensata e cruel. Atitudes como orgulho, vaidade, ciúme, inveja, arrogância, avidez, irresponsabilidade, egocentrismo, prepotência, vingança e disputas de poder dominavam as ações.

Nesse ínterim, a literatura inglesa nos introduziu um personagem legendário que teria vivido na época das Cruzadas, no século XII: Robin Wood, um fora-da-lei que roubava da nobreza para dar aos pobres. Sob o título de ‘príncipe dos ladrões’, Robin pintava e bordava contra o rei da Inglaterra, conhecido como João Sem-terra, herdeiro do trono de Ricardo Coração de Leão. Evidente demonstração da ambiguidade humana: um ladrão que rouba ladrão.

Esse pitoresco cenário me fez lembrar do livro árabe ‘As mil e uma noites’, traduzido pelo francês Antoine Galland. Em um de seus contos, o modesto lenhador Ali Babá assiste, sorrateiramente, um grupo de 40 ladrões esconderem um tesouro numa caverna, aberta e fechada por palavras mágicas: “Abre-te Sésamo”, “Fecha-te Sésamo”. Ao perceber a saída dos ladrões, Ali Babá, sem hesitação, se utiliza do segredo adquirido, entra na caverna e furta parte do tesouro, escondendo-o em sua casa. Seu irmão mais velho, Cassem, descobre o acontecido e, movido pela ganância, vai sozinho à caverna para furtar outra parte da riqueza. Porém, dominado pela avidez, esquece as palavras mágicas para abrir o portal de saída e, descoberto pelos ladrões, é assassinado. Ali Babá percebe o acaso, vai a caverna e o encontra morto. Surgem, então, outros ingredientes codependentes: a dissimulação e o conluio. Ele enterra o corpo do irmão na surdina, sem suscitar qualquer suspeita, com a ajuda da ambiciosa escrava de Cassem, Morgiana. Desconfiado, o chefe dos ladrões envia seus 39 comparsas com a missão de procurar o corpo deixado na caverna e acabam chegando à casa de Ali Babá. Contudo, são descobertos e mortos pela astuta Morgiana.

Com o maior cinismo, Ali Babá assume o próspero comércio antes pertencente ao irmão, e passa a viver nababescamente. Enfurecido e com intenções vingativas, o chefe dos ladrões infiltra-se como comerciante e é convidado para ir a casa de Ali Babá. Entretanto, a astuciosa Morgiana o reconhece, o distrai e o mata com uma punhalada certeira em seu coração. Como retribuição aos magníficos serviços prestados, Ali Babá concede liberdade a Morgiana, que se casa com seu filho. Conclusão: Ali Babá se transforma no 41º ladrão, numa estória repleta de intrigas e emoções aflitivas.

Os meios justificam os fins?

Eu também gostaria de enquadrar os ‘bicheiros’ nesse raciocínio, contraventores espalhados solenemente pela nossa sociedade, que utilizam uma política contrária a Robin Wood: tiram dos pobres em benefício de enriquecimento próprio. São, inclusive, oficialmente responsáveis pela organização do desfile das escolas de samba, maior patrimônio turístico do Rio de Janeiro. Aqui, temos um tabuleiro meticulosamente montado, com peças abundantes como cinismo, vingança, avidez, corporativismo, clientelismo, nepotismo, intervencionismo, totalitarismo, etc. Os chefões do jogo do bicho usualmente apresentam primeiras damas jovens e fogosas, muitas vezes responsáveis por distribuir o dízimo aos pobres. Se vangloriam por ajudar instituições de caridade, e por aí vai. Eliminam qualquer obstáculo por um lado, e afagam necessitados por outro. Muitas semelhanças com a realidade apresentada pelos nossos sistemas políticos. É fundamental notar a omissão e a permissividade, numa espécie de consentimento popular, demonstrando um desejo inconsciente, o paradoxo legalidade x ilegalidade.

Os meios justificam os fins?

Não consegui deixar de estampar um sorriso no meu rosto: teria sido um sinal de serenidade ou eu estaria mais próximo da perda completa das minhas faculdades mentais? Delirei por um lapso de memória, ao me comparar ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Ele enlouqueceu pela sua genialidade, ao tentar entender a mente humana. Eu, simples mortal, me atrevo a pensar sobre os motivos pelos quais a ignorância humana se manifesta com tamanha efetividade.

Então, posso voltar a minha tese e citar o pensador, diplomata e historiador florentino Nicolau Maquiavel. Em sua fantástica obra, O Príncipe, ele introduz no início do século XVI um exuberante manual de política, enfatizando que os governantes devem alcançar seus objetivos por meio da ética (costumes virtuosos e moralidade), numa evidente alusão de que objetivos não podem ser alcançados através de métodos irresponsáveis, dissimulados, repressivos e ilegais. Como isso provocou forte controvérsia, seus adversários políticos deturparam parte do seu texto e criaram a expressão ‘os fins justificam os meios’.

Não sei se a visão sistêmica se partilha, mas nesse momento de imensa confusão mental, é só o que tenho para oferecer. Tento me espelhar na história, refletir sobre momentos marcantes como as Cruzadas, Robin Wood, a figura dos bicheiros e o conto de Ali Babá, tentando entender as causas e consequências desse niilismo. De fato, a hipocrisia e a falsidade permanecem ativas e provocam uma erupção intangível, similar ao Vesúvio que destruiu a cidade de Pompéia.

Diante disso, fico aqui imaginando como poderíamos solucionar tantos equívocos e aflições. Talvez só encontrando a lâmpada de Aladim, que nos proporcionaria uma solução mágica e eficaz. Assim que a encontrasse, iria fazer meu pedido: que a luz penetrasse nos nossos corações e iluminasse nossas mentes. Ops, mas será que as pessoas desejam genuinamente iluminar seus caminhos? É uma mera questão de objetivos.

Niterói, 30 de maio de 2016

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência cognitiva e emocional.

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Este post tem 2 comentários

  1. Leda Bottino

    Excelente reflexão, com a riqueza e a precisão de conteúdo entremeadas pela leveza do sense of humor natural em mentes privilegiadas…sinto imenso prazer ao ler seus textos…Leda Bottino

    1. Wilson M. Moura

      Muito agradecido, Leda.

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