O SENTIDO DA VIDA: AÇÕES FUNDAMENTAIS

Wilson M. Moura Ξ May, 18th 2020

Por que a coerência é tão árdua de ser praticada? Se formos analisar com os olhos da consciência, só somos coerentes quando ordenamos e harmonizamos nossos valores, intenções, crenças e comportamentos com as leis do universo. Caso contrário, vagamos por meio dos nossos desejos e delusões, produzindo frustrações e sentimentos aflitivos. Por isto, estamos atrelados à roda da vida e ao consequentemente ciclo causal de sofrimento. Mas estas circunstâncias são passíveis de mudança. Basta plantar as sementes, cultivá-las e saborear os frutos.

A natureza humana revela persistentemente dúvidas e conflitos existenciais enlaçados em múltiplos temas, como a razão de ser, a qualidade das próprias intenções e o grau de responsabilidades supostamente obrigatórias, relacionadas com questões pessoais e, portanto, relativas. Por sua vez, estas interrogações são consequências do reduzido grau de conhecimento sobre os fenômenos que nos circundam, suas aparências, relações de interdependência e soluções possíveis. Esta momentânea incapacidade de compreender tais incertezas e angústias gera ambiguidades, dificuldades para estabelecer prioridades e, consequentemente, complicações para pôr em prática ações que venham agregar valores e consubstanciar um sentido de vida harmônico e pacífico. E, como a vida é constituída a partir de ações, precisamos analisar seus respectivos graus de relevância, assim como atribuir significados valorativos que produzam benefícios. Este exercício necessário, benéfico e oportuno avança pela análise serena entre os conceitos de fundamental e essencial.

A noção de fundamental estabelece uma analogia com alguns tópicos que contribuem para a obtenção do essencial. É aquilo que serve de fundamento, o meio, a maneira ou a metodologia utilizada para se obter o essencial. Assim, relaciona-se com os desafios ou obstáculos a serem ultrapassados, com ações que traduzam hábitos visando alcançar temas mais relevantes ou essenciais. Há muitas atividades que exemplificam o fundamental, como, por exemplo, autoconhecimento, alimentação equilibrada, maturidade emocional, disciplina, educação, relaxamento, saúde física e mental, trabalho, etc.

O fundamental está sempre atrelado a uma forma de intenção ou desejo; a regra básica é verificar se esses desejos possuem conteúdos essenciais, necessários para que se tornem fundamentais. Neste contexto, existem quatro fatores que considero fundamentais e oportunos porque agregam valores ao caminho do autoconhecimento e justificam a busca do essencial: esperança, simplicidade, confiança e motivação. Esperança e simplicidade foram temas de dois outros artigos que escrevi “Do Pessimismo à Espiritualidade” e “S de Simplicidade”, portanto aqui me aterei aos dois restantes.

A confiança relaciona-se com nossas crenças e valores, além da esperança, apontando para a possibilidade de que algum comportamento possa gerar algo benéfico ou evitar algum acontecimento não favorável. Num plano mais elevado, pode-se associar a uma metodologia que origine o correto entendimento sobre as ações, suas causas e respectivas consequências. Em princípio, a confiança deve se alicerçar numa base legítima, lógica, que faça sentido, e não numa uma crença delusória (fé cega). Uma das maneiras mais eficientes de desenvolvê-la é analisar cuidadosamente todos os aspectos envolvidos, visando ativar o fator motivacional. Neste sentido, a confiança é uma função com dois componentes: motivo (razão de crença) e discernimento.

Há duas formas de confiança: sem e com discernimento. A primeira é aquela em que não há qualquer entendimento do que está sendo feito e não se baseia em motivos fundamentados na reflexão, apoiando-se numa simples crença, de fora para dentro, sem qualquer investigação lógica. A segunda forma é a confiança com discernimento, aquela que examina o objeto de crença e investiga sua relevância diante das respectivas necessidades e exigências. A crença é gerada após análise cuidadosa, ponderada e racional. O motivo fundamentará a motivação, agindo como fator causal. Essa condição analítica nos protege da opinião alheia condicionada e avigora a perseverança numa confiança ponderada, que faz sentido. Posso citar, como exemplos, o desenvolvimento de fatores virtuosos, como paciência, empatia, prática da meditação e a preservação do meio ambiente. Portanto, quando os motivos fazem sentido, fortalecem a confiança e a impulsionam virtuosamente. A melhor forma de desenvolver a confiança é reconhecer os incontáveis benefícios das ações conscientes e responsáveis, catalisadoras da determinação motivacional. Em última análise, a confiança é a resultante de dois componentes: o motivacional, por meio da escolha de um motivo relevante, e o consciente, que ativa o discernimento, ou seja, a análise ponderada.

Neste ponto, é inevitável analisar as distinções entre crenças e valores. As crenças ou objetos de fé possuem conexões implícitas e explícitas com as estruturas mentais, gerando expectativas e dúvidas negativas com relação a algo, e estas, por sua vez, trazem exigências, produzindo alto grau de aprisionamento. São percepções (convicções) individuais sustentadas pelo processo mental condicionado: desejo, apego e obsessão. Este é o momento ideal para acionar o discernimento, já que a maioria das nossas ações é movida pelas crenças ou pela fé emocional, a ‘fé cega’, sem a devida clareza de que estamos sendo conduzidos por sensações e percepções completamente limitadas.

Por esses motivos, as crenças não podem ser consideradas essencialmente indispensáveis, pois são pontos de vista, de caráter individual. Se cada pessoa adota uma crença, isto significa que a crença não tem natureza absoluta. Valor é o que dá significado (relevância) às nossas intenções, crenças e comportamentos, e deve ser inegociável. Os valores definem os princípios que norteiam nossas atitudes: são os pilares de nossas ações. Logo, a fé emocional relaciona-se com as crenças condicionadas, que geram delusões e segregam valores essenciais.

William Shakespeare escreveu em um dos seus aforismos: “Os miseráveis não têm outro remédio a não ser a crença”, isto é, uma crença está sempre associada ao pensamento limitado, a um grau reduzido de liberdade e conhecimento. Por conseguinte, sempre devemos analisar o desejo condicionado e suas consequências, assim como o grau de aprisionamento ou de liberdade de pensamento. Uma crença é algo totalmente subjetivo, individual.

As contemplações fundamentadas no discernimento nos direcionam à sabedoria inata, sem qualquer necessidade de crenças. A partir da compreensão direta dos fatos, seria desnecessária a existência de crenças ou da fé, porque os fatos são exatamente o que são. Não me refiro a um paradoxo, mas, sim, a um estado evolutivo da mente, que consegue enxergar os fenômenos como são, sem delusões. Esse raciocínio me levou a uma visão futurista e ousada, na qual eu não mais precisaria de crenças. Seria uma situação ideal, livre de percepções condicionadas e aprisionamentos. Voltei para o momento presente e compreendi que hoje eu ainda preciso ter crenças, mas devem ser apoiadas no discernimento, gerando motivos confiáveis e descondicionados, para que num futuro eu não mais necessite crer em algo.

Motivação é um tema, corriqueiro e, ao mesmo tempo, sutil e enigmático. A motivação pode ser definida como um aspecto intencional da mente, um tipo de desejo, que impulsiona em direção a determinada ação. Desta forma, a motivação, como o próprio vocábulo evidencia, advém do motivo pelo qual se escolhe fazer uma coisa e não outra. Portanto, é função direta da intenção, da confiança, com base em algum motivo lógico, além da perseverança.

A motivação é a expressão de um motivo, sendo sua forma de manifestação. Contudo, o ideal seria que o motivo fosse fundamentado no discernimento, no sentido de compreender a razão da escolhae sustentar a motivação para que esta não seja transitória. O aspecto motivacional só terá o devido vigor se estiver agregado ao fator da firme determinação, visando à mudança sustentável de atitude e de comportamento. A motivação refere-se, portanto, aos fatores que geram, direcionam e sustentam o comportamento do indivíduo. Caso não haja consciência e perseverança, os motivos não se sustentam.

O grau de motivação se relaciona com a capacidade de ouvir, tolerar, ser paciente e se autoconhecer. Por conseguinte, a motivação consiste em diversas etapas. Para que eu me motive, preciso compreender as razões pelas quais necessito adquirir autoconhecimento, estudar, planejar, cuidar do corpo e da mente, trabalhar, realizar tarefas, cumprir metas, etc. Assim, a motivação possui relação causal com a intenção, podendo apresentar um aspecto virtuoso, quando direcionada para a obtenção de benefícios genuínos, ou não virtuoso, quando atrelada a comportamentos que tragam condicionamentos. Logo, a motivação tem início na intenção, no querer, e não depende de qualquer fator externo.

Desta forma, cheguei à evidente conclusão: ninguém motiva ninguém. Eu posso, sim, oferecer motivos e razões para outras pessoas, mas não tenho o poder de motivá-las. A motivação é movimento pessoal, processo mental de dentro para fora. Portanto, é uma função que envolve os componentes da intenção, da confiança (motivo + consciência) e da firme determinação. A desmotivação implica exatamente a ausência desses atributos.

No próximo artigo estarei dando continuidade ao tema, ponderando sobre o sentido da vida e as ações essenciais. Até lá!

Niterói, 18 de maio de 2020

Wilson M. Moura

Contato para palestras: news@wilsonmmoura.com

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Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Atua como strategic thinker, palestrante, mentor e escritor, com o propósito de viabilizar pessoas e organizações a projetar estratégias de mentalidade de crescimento, maturidade emocional e a pacificação da mente, assim como otimizar metas e investimentos, vivenciar experiências transformadoras e de autorrealização.

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