O SENTIDO DA VIDA: AÇÕES ESSENCIAIS

Wilson M. Moura Ξ May, 20th 2020

O estudo sobre as ações fundamentais referente ao artigo anterior me fez refletir sobre como eu administrava o dia a dia, avançando pela qualidade das ferramentas que utilizava e meus genuínos objetivos de vida. Intimamente, sabia que também precisaria meditar sobre as minhas verdadeiras prioridades e que isso passaria por um exercício consciente acerca dos temas essenciais.

O conceito de essencial refere-se ao absolutamente necessário, o fim, o propósito maior que manifesta princípios e valores direcionados às experiências de troca, ao coletivo; é tudo aquilo que desperta a essência do ser, aquilo sem o qual não se pode viver equilibradamente, como afeto, convívio humano pacífico, harmonia, espiritualidade e paz interior.

Porém, na minha lista de prioridades, o tema “mais essencial”, dentre todos os outros, é a felicidade, um atributo imprescindível que se relaciona diretamente com a quietude mental estável, e exprime o sentido da vida. Todos os ensinamentos que eu havia pesquisado me levaram para essa direção e, intuitivamente, traduziam minhas aspirações. Sempre busquei a pacificação da mente de forma abstrata, o que, de certo modo, dificultava o entendimento e a prática. Eu precisava desenvolver um modelo mais pragmático, por meio de ações que estivessem ao meu alcance. Foi quando distingui que já conhecia as causas raízes da infelicidade que, de fato, flertavam comigo acenando bandeiras brancas, como se estivessem prontas para a transformação. Como todas as ações são formas de energia, eu poderia transformá-las em dádivas, com base na equidade da natureza.

A felicidade sempre foi um objetivo meio enigmático, pelo seu suposto grau de dificuldade e, de minha parte, por eu não focar o assunto. Ser feliz era como se fosse um objeto de desejo abstrato, muito distante de ser alcançado. De fato, nunca priorizara o entendimento desse processo mental e, principalmente, os fatores que inibiam a minha felicidade. Então, resolvi relacionar antídotos para os quatro venenos dominantes da mente, pois eles atuariam contra a ignorância mental condicionada, sua incessante ação, assim como a raiva, o ódio e o orgulho. A partir de uma visão sistêmica sobre os ensinamentos apreendidos, agreguei o entendimento de que o sentido da vida é composto de quatro virtudes incomensuráveis: alegria, compaixão, amor e quietude mental estável. Essas virtudes têm o poder de unir e interagir com todos os outros fatores fundamentais de desenvolvimento, sintetizando a essência dos ensinamentos, além de gerar intenção genuína: servir aos outros conscientemente e fazer prosperar o mundo em que vivemos.

Quando comecei a meditar sobre a alegria, pensei inicialmente na perigosa proximidade com o entusiasmo delusório, baseado em comportamentos condicionados e estímulos externos, capazes de gerar preocupações, expectativas e frustrações. Ao contrário, alegria é um fator que se relaciona com criatividade, confiança consciente, leveza e a obtenção de uma preciosa recompensa, advinda da realização de outros fatores virtuosos; ao mesmo tempo, é um sentimento que os impulsiona. Tem o poder de contagiar o ambiente e, por isso, relaciona-se francamente com a compaixão e o amor. Portanto, a alegria alcança estreita afinidade com a felicidade, pois ela tanto pode gerar condições para que a felicidade se manifeste como também manifestá-la explicitamente.

A compaixão pode ser traduzida como sendo a firme e ilimitada intenção de que todos os seres estejam livres do sofrimento e das causas que o produzem. Portanto, há dois aspectos essenciais a serem apreciados: a intenção de que os seres não sofram e a vontade de gerar ações que cessem o sofrimento. Aqui reside sua complexidade, pois não adianta intencionar a cessação do sofrimento e nada fazer para alcançar o objetivo. Além de intencionar a compaixão, é preciso colocá-la em prática, ou seja, implantar e implementar, no cotidiano, os fatores de concentração meditativa e os fatores auspiciosos de desenvolvimento. Desse modo, a compaixão é um movimento espontâneo, a vontade incomensurável de que todos os seres se libertem do sofrimento por meio da compreensão do próprio sofrimento.

A compaixão envolve quatro estágios. O primeiro deles se refere ao nítido entendimento de seus dois aspectos: a compreensão do sofrimento dos seres vivos e suas causas e, consequentemente, uma firme motivação para implementar mudanças comportamentais. O segundo estágio é o desenvolvimento da generosidade para consigo mesmo, a fim de ter paciência com as próprias limitações e evitar autopunições. O terceiro diz respeito à agregação de valores virtuosos, sem prejudicar os outros, adicionando autoconhecimento e avigoramento interior. O quarto estágio é aquele em que nos colocamos disponíveis para ajudar a remover o sofrimento dos outros, assim como para prevenir e evitar que sejam prejudicados. Este quadro de ações me fez cair na real e constatar, definitivamente, que a prática da compaixão é essencial; sem ela, não temos como obter a felicidade.

A princípio, confesso que me deixei levar pelas delusões e subverti o significado do amor, confundindo-o com o da paixão, sentimento alicerçado no orgulho e em objetos condicionados e insustentáveis. Com o exercício da contemplação e da energia virtuosa da compaixão, deixei de lado o egocentrismo e passei a abranger o significado irrestrito e estável do amor, quando foram abertas muitas portas para que eu pudesse atingir significados mais amplos. A definição mais abrangente que encontrei sobre o amor é: a firme ou ilimitada intenção de que todos os seres sejam felizes, alcançando as causas que geram a felicidade. É o antídoto mais poderoso contra a raiva e o ódio, e está diretamente relacionado com a compaixão e a paciência.

O amor é o caminho direto para a união da dualidade, para a não segregação entre mundo interior e exterior e, portanto, para a paz universal. O amor exprime a onisciência, o uno, o indivisível, a plenitude e a compreensão de que os fenômenos são inseparáveis. Neste contexto, o amor e a compaixão são as forças motrizes que inspiram e conduzem várias outras virtudes como altruísmo, generosidade, empatia, interação, solidariedade, dentre outras. O cultivo da compaixão e do amor por todos os seres é o ponto de interseção entre todas as mentes oniscientes.

Equanimidade ou Quietude mental estável é a qualidade ilimitada, imensurável, imparcial de todas as ações: o ambiente de paz interior da mente, no qual alegria, compaixão e amor se manifestam. O efeito deste princípio mantém a mente num estado de serenidade estável, de equilíbrio contínuo, livre da influência das sensações, dos extremos das atrações e das aversões, propiciando a compreensão dos fenômenos exatamente como são, sem delusões.

A quietude mental estável ativa a sabedoria, disponibilizando o equilíbrio necessário para o surgimento do discernimento, atenção plena e reflexão, com estabilidade. Está diretamente relacionada com a renúncia e a respectiva desistência de qualquer esforço desnecessário na aplicação dos antídotos contra os venenos da mente.

O desenvolvimento desta habilidade enseja estágios mentais de fortalecimento, pacificação e autodirecionamento, traduzindo plena liberdade de ação e lucidez, sem expectativas, numa experiência de profundo bem-estar e ausência de interferência por parte dos pensamentos, conectando-nos com a forma essencial de existência da mente. Por estas razões, a quietude mental estável é um estado essencial e virtuoso da mente, que inspira o cultivo da sabedoria inata e a sustenta.

Sim, mas imagino que você esteja querendo saber qual é o sentido da vida, ora bolas? E eu respondo prontamente: encontrar um propósito genuíno, ora pois. Talvez por isso o escritor Mark Twain afirmava que os dois dias mais importantes da vida são o dia em que nascemos e aquele em que damos um significado a ela. Num plano espiritual, S.S. o XIVº Dalai Lama, ainda acrescentaria um terceiro momento mais importante: o momento da morte. A morte é uma das poucas certezas que possuímos, assim uma das ações mais sábias que podemos gerar é viver a vida como uma adequação para a morte, numa espécie de proficiência para as próximas experiências no continuum da mente.

O momento da passagem é fundamental para que entremos serenos no Bardo Thodol, período intermediário entre a morte e o próximo renascimento. Alguns mestres tibetanos inclusive induzem conscientemente a morte por meio de uma técnica avançada de concentração meditativa chamada de Powa, uma espécie de guia de transferência de consciência.

Enfim, não evoluímos quando as pessoas nos dizem algo. Aprendemos quando as ações fazem sentido, geram bons motivos ou agregam valores. Afinal, nunca é tarde para ser o que você poderia ter sido. Com consciência, discernimento, disciplina, perseverança e paciência e generosidade para consigo mesmo você descobrirá que a jornada é a recompensa.

Niterói, 20 de maio de 2020

Wilson M. Moura

Contato para palestras: news@wilsonmmoura.com

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Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Atua como strategic thinker, palestrante, mentor e escritor, com o propósito de viabilizar pessoas e organizações a projetar estratégias de mentalidade de crescimento, maturidade emocional e a pacificação da mente, assim como otimizar metas e investimentos, vivenciar experiências transformadoras e de autorrealização.

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