O MENOS RUIM

Wilson M. Moura Ξ July, 23rd 2019

As eleições acontecem a cada dois anos e o alvoroço é evidente. Múltiplos movimentos se formam, porém o que mais me chama a atenção é o dos que clamam pela abstenção ao voto. Eu assisti a um desfile de presidentes da República desde 1958: foram 19, de Juscelino Kubitschek a Jair Bolsonaro. Teriam sido 20, caso Tancredo Neves tivesse tomado posse. No Estado do RJ, tivemos 25 governadores, sendo que o ponto de intersecção é a dificuldade de encontrar líderes íntegros e competentes. Como já dizia Rui Barbosa “Há tantos ignorantes comandando homens inteligentes que às vezes penso que a ignorância é uma ciência”. O sistema político vigente produz 65.000 políticos em todo o território nacional, numa aberração instituída e legalizada, com as benções populares!

Mas, que tal de ignorância é essa? Donde vens tu, cara pálida? Como se comporta? Está relacionada ao grau de intelectualidade? Quais são as consequências que ela nos gera? Como permitimos que pessoas tão incompetentes cheguem ao poder? O filósofo francês Emile-Auguste Chartier nos mostrava o caminho das pedras no início do século XX “Nada é mais perigoso do que uma ideia quando se tem apenas uma.” Sim, a ideia parece ter sido apenas uma: jogos de poder! Tivemos Juntas militares em 1930 e, posteriormente, no período de 1969 a 1975. E uma suposta democracia intermediária. De maneira complementar, o mestre tibetano Tenzing Gyatso, S.S. o 14º Dalai Lama, nos ensina que “Os seres humanos são implacáveis. Querem segurança, estima, saúde, riqueza, poder e, não satisfeitos, fama.” Já o escritor norte-americano Alvin Toffler utilizava-se de hábeis palavras “Os analfabetos do século XXI não são aqueles que não sabem ler ou escrever, mas os que não sabem aprender, desaprender e reaprender.” É o óbvio ululante: os Deuses se esforçam para nos mostrar os caminhos virtuosos, porém continuamos sem querer enxergá-los.

Visto as circunstâncias teratológicas as quais nos encontramos, temos uma oportunidade esplêndida para visualizar nossas bucólicas crenças, valores, intenções e comportamentos, porém totalmente inócuos, ou mesmo para transformar o caos em oportunidades de aprendizagem. Precisamos nos educar a produzir uma mentalidade de crescimento e atingir maturidade emocional. Regra geral, vemos reações explícitas de ódio, de culpa dos outros e aversões ao diálogo, que consubstanciam um status quo problemático, aflitivo e permanente. Estamos envoltos numa esfuziante estupidez tosca, uma espécie de balança desequilibrada onde, de um lado, fanáticos partidários se digladiam entre si e, do lado oposto, há uma letargia predominante. Ambos movidos pela confusão mental e pelo orgulho, características fundamentais da estupidez. Além disso, um desejo de mudar o outro, porém sem querer mudar a si mesmo. Invariavelmente, o foco é de fora para dentro; não há integridade ou qualquer forma de pensamento crítico, assim como integração e interação parecem ser valores longínquos e irrelevantes.

As castas mais intelectualizadas não estão comprometidas como deveriam; usam o cérebro para aumentar suas fortunas e esquecem da sabedoria. O sistema educacional oferece um programa desconectado da mentalidade de crescimento, do aprendizado consciente e da mudança cultural. Articula diplomas, mas não constitui indivíduos capacitados. As universidades públicas são mal administradas e vivem envolvidas em movimentos políticos tão ou mais tacanhos que no Congresso Nacional. As ações comuns são confundidas como normais, como se os conceitos fossem idênticos. O povo brasileiro se adequou indiferentemente à burocracia e incoerência, às filas e cartórios, ao combustível mais caro do mundo, às péssimas práticas de governança, nos 3 Poderes da República; condicionou-se a tacanhez. Os cargos políticos são efetivados pelas grandes massas, as classes menos favorecidas, que representam 70% dos votos. Em qualquer hipótese, os políticos eleitos, direitistas ou esquerdistas, nos representarão oficialmente, assim como irão nomear suas proles e obter todas as benesses ambulantes, em nome do Estado. Dizer que ‘fulano ou sicrano não me representa’ não traz nenhum resultado efetivo, já que os caras estão e estarão lá, as nossas custas, quer queiramos ou não.Estamos vivendo numa bolha cognitiva, onde cada um pensa no próprio umbigo, sem qualquer responsabilidade no coletivo.

Não podemos nos abster, ao contrário, devemos negar firmemente a abstenção ao voto, pois a indiferença também é uma forma de sensação. Temos que aprender a votar no ‘menos ruim’ até que o sistema político seja metamorfoseado: é um comportamento que só depende de nós. Todos os agentes públicos, inclusive os políticos, necessitam fazer concurso público, como pré-requisito, no sentido de evidenciar suas competências específicas, sem direito a imunidades e privilégios. Precisamos aprender a analisar os critérios de coerência, relevância e simplicidade.

Quando vemos um jardim destruído, temos três opções: lamentar eternamente, permitir que pessoas indiferentes e de má índole continuem a destruí-lo ou participar do processo de reconstrução, escolhendo os colaboradores mais bem preparados, mesmo que não sejam ideais. Dos candidatos que se apresentam, quais teriam as maiores competências para transmutar o orgulho, impor disciplina, foco e inteligência organizacional, gerar comprometimento e agregação, produzir transparência e responsabilidade. É tempo de efetuar um profícuo exercício e, mesmo que não consigamos escolher um candidato com todos esses pré-requisitos, optar pelo que represente o mais próximo do melhor ou, no mínimo, o menos ruim. Como diria o velho ditado popular: Se não tem tu, vai tu mesmo. A opção consciente pelo ‘tu mesmo’ é muito mais eficaz do que o qualquer um ou nenhum.

Nos jogos de poder, existentes nos 3 poderes da República, encontramos um pacote contendo 11 características implícitas e explícitas: confusão mental, crueldade, avidez, falsidade ideológica, corrupção, hipocrisia, irresponsabilidade, malevolência, fisiologismo, corporativismo, patrimonialismo, além da célebreincompetência geral e irrestrita. A ampla maioria dos seus membros possui todas essas tipicidades. O exercício é determinar os que apresentam o menor teor de venenos, dentre as características citadas. Em tais circunstâncias, devemos assumir as rédeas e inspirar uma mudança comportamental consciente, aprendendo a votar no menos pior, já que não temos ‘o melhor’. Resiliência é a palavra-chave, pois soluções miraculosas e perfeitas são utópicas. Tão ou mais relevantes que as instituições são as competências de quem as conduz.

Os cidadãos conscientes necessitam assumir suas responsabilidades, já que sabemos que a maioria da população é irresponsável e adora culpar os outros pelas consequências que ela mesma provoca.É inútilfazer gozações se não mudarmos o comportamento com ações concretas. Precisamos ser eficazes e efetivos, com alegria e simplicidade. Enquanto não alterarmos o sistema, precisamos votar no ‘menos ruim’, nos ‘menos piores’, e inspirar a grande massa. É o mínimo que devemos e podemos fazer. Votar com consciência, necessitamos.

Niterói, 23 de julho de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência emocional e intrapessoal.

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