O JORNALISMO E SEUS PARADOXOS

Wilson M. Moura Ξ August, 16th 2019

O brilhante jornalista Clóvis Rossi dizia que o jornalismo não é um ofício técnico, mas uma função social relevante: “O dever fundamental do jornalista não é para com seu empregador, mas com a sociedade. É para ela, e não para o patrão, que o jornalista escreve”, ensinava. Também apregoava que o jornalismo deveria se consubstanciar por meio de 4 princípios: crítico, apartidário, autônomo e pluralista.

Porém, na contramão das suas virtuosas lições, temos visto um cenário completamente distinto. No Brasil o produto da atividade jornalística mudou: de maneira oposta ao conceito original, a arte de oferecer, com isenção, o que de mais relevante aconteceu ou está acontecendo visando informar determinado público, transformou-se no movimento de influenciar e formar opinião, criando estereótipos moldados de acordo com interesses outros, sejam partidários ou econômico/financeiros, dependentes das orientações corporativas de suas chefias de redação, salvo exceções.

O jornalismo brasileiro parece estar amplamente inspirado no diretor Sidney Lumet e seu ótimo “Rede de Intrigas”. Pautas com base em mexericos, simulações, maledicências, redundâncias, adivinhações, corporativismo escancarado e opiniões tendenciosas, sem qualquer compromisso com a isenção, num festival de caretas faciais, falatórios prolixos, ambiguidades, contrassensos e impetuosas defesas de teses, numa completa inversão de valores.

As pautas não são baseadas nas prioridades de mudança cultural ou equidade social, mas em dúvidas e críticas negativas improdutivas, além de ideologias pessoais, usualmente de esquerda. Com isso, não estimula o desenvolvimento da razão, visão sistêmica e pensamento crítico, gera temores, não constrói paradigmas saudáveis de reflexão, não estabelece padrões culturais de liberdade que proporcionem a transformação da informação em conhecimento. O fundamento parece ser ejacular informações, produzir presunções sem qualquer filtragem de qualidade, e faturar cifras astronômicas com a desgraça alheia.

Ademais, é impressionante a quantidade de âncoras e jornalistas desqualificados, sem embasamento cultural e/ou técnico, com má formação na língua portuguesa, insipiente dinâmica de leitura e interpretação de textos, além do uso vulgar e redundante de expressões como “a gente” e “né”, criando hábitos culturais inócuos, não educacionais. Imaginemos se, um dia, o país conseguir vencer ou mitigar a ignorância. Certamente, uma das profissões que mais demitiria seria o jornalismo, pois a quantidade de fofocas e futilidades seria significativamente reduzida.

O maior conglomerado de mídia e comunicação da América Latina introduz suas chamadas por intermédio de “nossos comentaristas”, ao invés de “nossos jornalistas”, numa tendência explícita à formação de opinião: teria como objetivo criar um clichê populacional limitado e irracional, dependente da mídia?

Nesse contexto, surgem vários tipos de jornalismo. O formato ‘Mimimi’ propõe pautas inúteis e supérfluas, insinuando tacanhices, indefinidamente. O tipo ‘Familiar’, onde todos se auto denominam uma “família”, são amados equanimemente, sem qualquer esboço de ciúme, inveja, raiva, mágoa ou coisas do gênero. Imagino que ganhem o mesmo salário e trabalhem o mesmo tempo. Há o ‘Diminutivo’, quando chamam os profissionais pelo nome diminutivo, como se estivessem no recreio da escola. Também podemos citar o tipo ‘Falso e hipócrita’, pelo qual tratam os telespectadores/ouvintes como “queridinhos”, “lindinhos”, onde o que vale é a disputa pela audiência. Temos ainda o feitio “Sensacionalista/sanguinário”, que busca a audiência a partir da desgraça alheia.

Já o modelo “Corporativista” se movimenta por meio de uma autêntica panela hermeticamente fechada, onde só adentram seus correligionários, adeptos da mesma ideologia; fazem propagandas pessoais, divulgando livros, blogs, redes sociais, peças teatrais e programas mil, independentemente da pauta abordada. Agradecimentos intermináveis dos elogios recebidos, numa exibição explícita de inconsciência, egocentrismo, arrogância, dispersões, análise equivocada, falsidade e hipocrisia. Raramente notificam as críticas recebidas, e quando o fazem, as rebatem com veemência e picardia.

O mau jornalismo tornou-se lugar-comum e brilha em raios fúlgidos, no país onde a imagem do Cruzeiro resplandece. Não consegue perceber a armadilha em que se abraçou. Ele produz os ‘monstros e fantasmas’, afirma que eles são verdadeiros, e age como se existissem por si só, sem qualquer forma de interferência própria, num processo de absoluta delusão, ora consciente, ora inconsciente.

Logicamente existem exceções, profissionais competentes e cônscios da sua responsabilidade em compartilhar informações, inspirando o grande público a pensar e a andar por conta própria, porém perdidos nos tiroteios dos furos egocêntricos e inúteis de notícias e das cifras financeiras da audiência: é como se não houvesse coisas relevantes a serem tratadas. Precisamos fazer um esforço danado para encontrá-los e nos informar sem interferências, já que estão acessíveis apenas para um percentual ínfimo da população.

Afinal, estamos no Brasil, contaminados por uma cultura secular nutrida pela insensatez, em todos os setores da nossa sociedade.

Niterói, 16 de agosto de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências.

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