O DIÁLOGO E SUAS PROEZAS

Wilson M. Moura Ξ October, 21th 2018

Nesses tempos de absoluta profusão de transtornos mentais, venho acompanhando atentamente os discursos inflamados de algumas pessoas que se dizem “amantes do diálogo”. Acabei lembrando do período de três meses em que convivi com os monges tibetanos na Índia e no Nepal. A vida monástica tibetana insere no seu cotidiano o que chamam de ‘debates’, parte integrante da grade educacional. São considerados exercícios virtuosos, quando testam seus conhecimentos, ampliam o poder da memória, escuta e, consequentemente, reflexão, tornando suas vidas mais significativas. Ao acompanhar os calorosos debates tibetanos tive a oportunidade, pela primeira vez na vida, de me concentrar nesse farto e abrangente tema.

Além da bibliografia budista, há uma vasta literatura sobre o tema, assinada pelos gregos Heráclito de Éfeso (filósofo pré-socrático considerado o ‘pai da dialética’) e Sócrates, Martin Buber (filósofo austríaco), Patrick Baltzar de Mare (psicoterapeuta), David Joseph Bohm (físico quântico norte-americano), Humberto Mariotti (psicoterapeuta brasileiro), Humberto Maturana (neurobiólogo chileno), além dos indianos Mohandas Gandhi, Jiddu Krishnamurti e Satish Kumar.

O diálogo é uma transcendente ferramenta vivencial de contemplação, análise e criatividade conjunta, que produz a adaptabilidade (integração) e o envolvimento (interação) das pessoas, objetivando aprimorar o entendimento mútuo, a geração de novas ideias, a quebra de paradigmas e a produção de significados que possam ser compartilhados. Portanto, o exercício do diálogo é função direta de diversos fatores: intenção de unir (aprender, compartilhar), memória ativa e poder de escuta, paciência, integridade, disciplina, respeito aos outros, humildade, resiliência, criatividade, empatia, consciência, discernimento, ponderação e contemplação.

Mas sobretudo a contemplação, capacidade de observar sem a geração de novos conceitos e julgamentos, já que o exercício do diálogo exclui eventuais discórdias, aversões, concordâncias, conceitos ou juízos de valor. O desenvolvimento por meio das razões das palavras necessita dessa dose de flexibilidade; caso contrário, haverá mera exposição de pensamentos, exibição de percepções condicionadas que, em determinado momento, em vez de produzir a união e o relacionamento pacífico, se transformará num processo de desunião e fragmentação. Dessa forma, podemos distinguir que a habilidade do diálogo transcende a disputa e a discussão.

O emérito professor norte-americano Warren Bennis afirmava em seu livro ‘A formação do líder’ que o líder bem-sucedido não é o dono da palavra mais alta, mas do ouvido mais apurado. Já o consultor norte-americano Stephen Covey enfatizava, em sua obra ‘Liderança baseada em princípios’, cinco níveis de escuta: ignorar a outra pessoa; fingir que escuta; adotar a escuta seletiva ouvindo partes da conversa (sei, sei, claro!); adotar a escuta concentrada, prestando atenção e convergindo energia às palavras que estão sendo ditas; e a escuta empática, que consiste em compreender a outra pessoa tanto no plano emocional quanto no intelectual, prestando atenção às palavras, sons emitidos, assim como à linguagem corporal.

Por consequência, o poder de escuta torna-se um estágio fundamental de evolução do diálogo, pois simboliza a habilidade de ouvir, ponderar e implementar aquilo que se ouve. O método mais eficaz para o desenvolvimento desta capacidade se constitui na eliminação dos cinco obstáculos usuais de um ouvinte. O primeiro é a falta de intenção: ausência de interesse, em que nada do que está sendo dito é assimilado. Os apegos e aversões são notórios e explícitos. O segundo obstáculo é gerado pelas formas de dispersões (distrações, inquietações e excitações): ouvir e não escutar. Está-se presente fisicamente, mas a mente encontra-se dispersa. É o momento certo para lembrar que o aprendizado é diretamente proporcional à intenção, à vontade. O terceiro está relacionado ao esquecimento: ouvir sem reter qualquer conteúdo. O ouvinte fica confuso, letárgico, disperso e esquecido, não preserva os objetivos da conversa e, portanto, não assimila e não gera motivos que possam motivá-lo. O quarto obstáculo é a percepção individual grosseira: escutar e interpretar de maneira pessoal, distorcendo o que foi propagado. O quinto é a motivação equivocada: ouvir a partir de motivos delusórios, com base em intenções dissimuladas. A iniciativa deve contemplar a educação e o treinamento da mente, sempre visando a sua pacificação.

Assim, o diálogo requer o desenvolvimento de habilidades subjetivas que extrapolam o intelecto, pois abrangem condicionamentos, conflitos e contradições dos participantes. O objetivo não é o ganho de uma das partes, mas, sim, uma responsável e transparente agregação de novos valores e competências, que visem a um impacto socialmente sustentável. É um processo de flexibilidade ou adaptabilidade mental e de comprometimento contínuo, habilidades raras numa sociedade impaciente, dissimulada, que não tem o hábito de refletir sobre as consequências das suas próprias ações.

Por outro prisma, tenho visto um movimento global em direção a uma forma mais aberta de diálogo, livre e criativo, por meio das redes sociais e de comunicação, numa proposta de integração, interação e reflexão comum, visando à educação recíproca, à produção e ao compartilhamento de significados. Este sentido do éthos é muito bem-vindo, desde que haja uma vontade sincera de troca de aprendizados, com experiências de sucesso e fracasso.

Imaginemos a infinidade de bons conselhos recebidos que simplesmente voaram a fundo perdido entre nossas orelhas, pelo fato de não havermos desenvolvido o poder da escuta. Realmente, a sabedoria só floresce a partir de muitas experiências vivenciadas e da intenção de aprender com elas. O diálogo é uma sábia metodologia de autoconhecimento, solução para complicações e compartilhamento mútuo, que chancela a reflexão e o entendimento dos nossos pensamentos que segregam e desarticulam a comunicação entre pessoas, povos e governos. A ação de dialogar nos permite exprimir conjuntamente nossos anseios, ambiguidades, dificuldades, sensações e percepções, de acordo com uma circunstância específica, num processo intencional e equilibrado de esclarecimento e compreensão mútua.

Ao trilhar o caminho do diálogo, percebemos a importância de aprimorar um espaço mental livre e espontâneo de interferências, uma filosofia de vida onde podemos adaptar, envolver e engajar pessoas, povos, organizações e governos nas questões que envolvam responsabilidade social, ética e transparência nas políticas públicas. Um processo estratégico e interdependente entre a sociedade e todas as partes interessadas.

Por essas e outras, acabei concluindo que o diálogo, assim como a integridade e a paciência, são algumas das proezas mais complexas e trabalhosas de se obter. Talvez, por conseguinte, é um dos motivos pelos quais vivemos num mundo tão desigual e ignorante. Depois de tudo isso, não nos é difícil averiguar os motivos pelos quais os seres humanos possuem tanta aversão ao diálogo. Ainda bem que tudo é impermanente.

Niterói, 21 de outubro de 2018

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências.

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