MEDITANDO SOBRE A RAIVA E O ÓDIO

Wilson M. Moura Ξ September, 2nd 2019

Entre tapas e beijos, raiva e ódio continuam sendo celebridades ativas e dramáticas no cenário mundial, cerceando movimentos deintegração, interação e comprometimento social. Portanto, nunca é tarde para entendermos suas formas de ação e peculiaridades.

Quando começamos a analisar o mecanismo da raiva nos deparamos com três características: suas causas, a questão emocional e a consequente perda da capacidade de uso e controle da razão. O padrão operacional da raiva é um dos fenômenos mais bem montados, maquiados e sutis da mente. Nossos cinco órgãos sensoriais geram contatos que produzem sensações agradáveis, desagradáveis ou indiferentes, acionando automaticamente nossas percepções (conceitos e juízos). A partir de ideias contrárias, as discordâncias se declaram e se manifestam velozmente, sejam elas contra uma opinião, comportamento, pessoa ou lugar. Nesse ponto, é incorporado um grau inconsciente de irracionalidade mental. E, como num passe de mágica, o conjunto discórdia–irracionalidade aciona os muitos desejos condicionados e apegos, ambos muito bem estruturados, que produzirão uma forma de aversão e, consequentemente, a raiva.

Assim, uma simples discórdia desencadeará um processo mental que culminará na raiva que, de forma sutil, irá adquirir uma dimensão destrutiva completamente inconsciente. Surgem, então, os alvos de destruição, os ‘inimigos externos’, gerando inúmeras consequências não vantajosas. Esse movimento ativo e sutil da mente é composto de várias ações, todas, porém, originadas pela ignorância mental condicionada e suas ações incessantes.

A raiva nada mais é do que uma forma de proteger nossos múltiplos mecanismos de defesa (desejos condicionados, apegos e condicionamentos). Daí a importância de me manter equilibrado emocionalmente quando somos contrariados e de desenvolver os atributos da paciência, do diálogo e da transparência sobre nossos apegos. Ao analisar com atenção, podemos entender que, de fato, atacamos para nos defender, para ocultar nossas visões delusórias.

Logo, é uma forma de emoção aflitiva, intensa e de curta duração, que acomete o sistema nervoso central e proporciona uma transformação orgânica significativa. Pode se manifestar contra objetos animados ou não animados, e quando se revela produz inúmeras formas de sofrimento, não apenas porque traz complicações e infelicidade à própria pessoa e aos outros, mas também porque destrói o equilíbrio mental.

Todavia, diferentemente das demais complicações que o apego produz, a raiva é mais facilmente controlável (abrandável) pelo fato de que se mostra mais explicitamente como sendo um estado mental não desejado, ou seja, é mais fácil identificar seus malefícios, já que agrava a sensação de sofrimento e infelicidade. Ela revela um conflito da pessoa consigo mesma ou com o mundo exterior, exibindo inúmeros componentes irracionais que podem se refletir tanto contra os outros quanto contra si mesma, dependendo da situação e da personalidade individual.

A causa-raiz da raiva é o inconsciente processo de ação incessante condicionada da mente, que se relaciona diretamente com os desejos, favoráveis ou desfavoráveis, produzindo apegos de todos os tipos. A base cultural, educacional e ambiental, assim como o desenvolvimento psicológico de cada indivíduo, são fatores preponderantes na exteriorização e/ou intensidade da raiva, diferindo, portanto, de pessoa para pessoa. Assim, a raiva apresenta duas características marcantes: um grau de irracionalidade e curta duração.

As principais consequências desse dominante veneno mental são agressividade (violência) verbal e/ou física, orgulho, ciúme, inveja, avidez, angústia, inquietação, e o ódio. Por conseguinte, é fundamental meditar sobre o modo de funcionamento da raiva, já que ela faz surgir ‘inimigos internos e externos’, incessantemente. É de extrema relevância entender esse processo mental, uma vez que os inimigos externos se relacionam com uma única vida, contudo, os inimigos internos nos afligirão nesse e nos próximos renascimentos.

Raiva e ódio são como irmãos, mas guardam certas especificidades. O ódio é uma expressão de afeto delusório (distorcido), que advém de percepções e desejos inconscientes e conscientes, porém, é predominantemente relacionado com desejos conscientes (voluntários), que refletem uma autoimagem de superioridade, uma paixão excessiva por si mesmo, um narcisismo explicitamente conectado com o orgulho. A questão afetiva refere-se ao fato de que tudo que é odiado, na verdade, é considerado muito relevante, de grande importância. Curiosamente, só odiamos o que valorizamos; não consideramos aquilo que não nos interessa. Ao contemplar a atuação desse mecanismo podemos entender o absoluto domínio da emoção sobre a razão (racionalidade).

O ódio é uma firme caracterização da raiva, sua consequência mais alentada e devidamente alimentada pelos instintos, impulsos e desejos, sem qualquer controle. Há um desejo voluntário para atingir finsdestrutivos, pelo prazer de provocar mal a alguém. Portanto, o ódio é racional, uma vez que apenas pode atingir seus objetivos malévolos pela deliberação voluntária de ser odioso. Então, nos é possível identificar nitidamente a atuação da ignorância mental condicionada e o grau de ambiguidade do desejo consciente, muitas vezes inconsciente.

O padrão operacional do ódio é igual ao da raiva, com três distinções. O ódio é uma forma de sentimento (mais duradouro), diferentemente das emoções (de pouca duração). Pode persistir durante uma vida inteira, sendo a antítese do amor e, consequentemente, da evolução mental e espiritual. A segunda distinção relaciona-se à racionalidade (voluntariedade). É uma espécie de desejo condicionado consciente que se manifesta de diversas formas: aversão tenaz, antipatia colérica, desgosto, horror, inimizade ou repugnânciacontra algo ou alguém, que produz vastas limitações pessoais e sociais.

A terceira distinção é super sutil e relevante: o tamanho do ódio é proporcional à importância que a pessoa atribui ao(s) objeto(s), seja ele uma opinião, conceitos, aparências, animais, trânsito, times de futebol, raças, religiões, políticos, etc. De fato, não há nenhuma coerência no fato de alguém desperdiçar tanta energia com o ódio se não desse relevância a ele, o que torna evidente que oódio possui relação confidencial com o excesso de sofrimentofísico e psíquico, sendo, portanto, aspectos codependentes.

A questão fundamental e mais evidente, neste momento, é a seguinte: é a própria mente que sente e interpreta o objeto, discrimina-o, lhe dá vida e lhe credita determinado valor, sem conseguir discernir que todas as circunstâncias possuem uma base neutra. É a mente que atribui às situações uma conotação positiva ou negativa e, sendo assim, eu possuo o poder para mudar o valor do que percebo como negativo. Portanto, se faz necessário efetuar um exercício consciente sobre o real valor de cada um desses objetos, assim como sobre o grau de afetividade que os envolve. Logo, a composição química e energética do ódio abarca duas especificidades glamorosas e sedutoras: a ignorância mental condicionada e um significativo grau de esforço racional que, entretanto, é totalmente incoerente.

Tanto quanto a raiva, o ódio se sustenta e se favorece na discórdia, nas diferenças entre o outro e o ‘eu’. Esse processo cria um condicionamento mental baseado em desejos e apegos, que se camuflam como benéficos, fazendo com que o indivíduo sinta, pense e aja incessantemente movido por essa aflição. Desse modo, toda ação contra aquilo que se odeia se transforma num fator de avigoramento, extinguindo a capacidade de discernimento e o equilíbrio interno, o que pode provocar doenças como arteriosclerose, câncer, hipertensão crônica e diabetes. Também desencadeia a depressão, pois gera frustrações e ressentimentos que culminarão em alguma forma de solidão.

Além disso, a raiva e o ódio surram o fígado, distribuindo suas energias aflitivas diretamente para a vesícula biliar e todos os outros órgãos do corpo: é como atear fogo na madeira, que, por sua vez, irá incinerar as emoções e sentimentos virtuosos.

Pesquisei abundantemente sobre as maneiras mais eficazes de transmutar a energia da raiva e do ódio e, em todas as fontes, alcancei o mesmo sexteto poderoso e transformador: generosidade para consigo mesmo, renúncia em relação aos apegos, alegria, equanimidade, amor, compaixão e empatia. Sendo assim, podemos pegar carona nos ensinamentos do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “Nada no mundo consome o homem mais completamente do que a paixão do ressentimento”.

Nosso grande desafio é compreender o processo de funcionamento da raiva e do ódio, e desmontá-lo. O primeiro passo nesse sentido seria reconhecer sua atuação. O segundo seria entender as causas que geram esses venenos, analisando nossas aversões, apegos e prioridades; o terceiro passo seria aprender a transformar essas formas de energia em oportunidades de aprendizado.

Ocasionalmente, confesso que minha conclusão me parece assustadora, já que, com tantos estímulos aflitivos no cotidiano, nem sempre consigo enxergar o sexteto protetor claramente. Mas, por outro lado, eu me consolo, já que posso decifrá-lo e manejá-lo na minha própria mente.

Niterói, 2 de setembro de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências.

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