MAS SERÁ O BENEDITO?

Wilson M. Moura Ξ October, 10th 2017

Lá se vão quase 90 anos desde que o povo de Minas Gerais se manifestava por meio de situações inesperadas, indagando se Benedito seria seu próximo governador. O Brasil se expressa por intermédio de um sistema político presidencialista, que se constitui através de um exercício híbrido de poder: democracia representativa (exercício indireto com representantes eleitos pelo povo) e soberania popular (exercício direto por meio do voto). O país possui 65.000 políticos eleitos, ou seja, lotariam o estádio do Maracanã: imaginemos um show dos 3 tenores ou do Pink Floyd só pra eles, durante três dias. Que farra!

A República Federal do Brasil está na sétima Constituição desde 1824. Foram 3 outorgadas e 4 promulgadas. Nossa última Constituição Federal foi feita com enorme carinho para o deleite dos políticos: qualquer indivíduo pode se eleger, desde que seja semianalfabeto, brasileiro e maior de idade. É um espetáculo dantesco: são eleitos sem comprovar qualquer competência. Basta sorrir, um discurso veemente, uns tapinhas nas costas do povo, uma boa dose de cinismo e falsidade, amplo treinamento voltado para a omissão e o circo está montado. Resultante? 35 partidos políticos registrados no Tribunal superior eleitoral que, em última análise, exprimem uma única ideologia: o benefício do próprio umbigo. Além disso, o TSE ainda analisa a criação de outros 50 novos partidos. Teríamos 85; seria um número cabalístico? Aqui entre nós, acho que Noé não teria convidado nenhum dos seus afiliados a embarcar em sua arca. O grande dilúvio varreria todos eles, talvez para uma eventual salvação celestial. Afinal, você conhece algum político que no mínimo não seja omisso? Sim, omissão também é crime.

A CF/1988 é tão pomposa que possui os seguintes critérios de classificação: analítica, codificada, dirigente, dogmática, eclética, escrita, formal, garantia, liberal, normativa, principiológica, promulgada, rígida e social. Só esqueceram de publicá-la com a finalidade de tornar o país eficiente e eficaz. O texto constitucional foi elaborado por “eminentes” juristas, políticos e instituições da sociedade com 114 artigos, explicitando que os políticos teriam ganhos estratosféricos, seriam livres de imposto de renda, não seriam julgados por juizados comuns, com direito a reembolsos mensais de R$ 90.000, além de possuírem extremo poder: podem indicar cargos e remunerações a milhares de assessores. Conclusão: são semideuses, muito mais fortes que os seres humanos normais, comparados aos senhores feudais ou grandes reis de outrora. Os deuses do Olimpo ficariam com inveja. Como consequência explícita, atiçaram os outros dois poderes “Nós também queremos participar da orgia”.

O que eles iriam nos oferecer para bancá-los? E a contrapartida? A promulgada constituição não exige qualquer competência para exercer os mandatos, afinal são eleitos pelo povo. Mas qual é o grau de instrução do povo? Quais são os critérios culturais? Então, temos o óbvio ululante: nosso sistema político dificilmente será eficaz. Não há o devido balanceamento, não há contrapesos. Temos 3 poderes, com p minúsculo. Os outros dois poderes, judiciário e executivo também possuem um poder exacerbado, gastos gigantescos e ineficácia, geral e irrestrita.

Também optaram pelo capitalismo como sistema econômico, aquele que possui como base o lucro. But, wait a moment: para que alguém ganhe, alguém tem que perder, uai. Não existe uma repartição equânime de lucro; prevalece o mais astuto, o mais forte, o que melhor se engendra. É quase que uma guerra, numa competição feroz capaz de gerar vários cavalos de Tróia. Temos, então, um sistema muito imperfeito, baseado no egocentrismo, onde a empatia é barrada. Ok, tá bom, é muito melhor do que estados interventores, autocráticos, ditadores, caudilhistas e socialistas. Contudo é muito aquém das nossas necessidades genuínas: uma atrofia total.

E o sistema cultural vigente, dirigido para criar necessidades desnecessárias. Quantos anos mais serão necessários para se entender que cultura é sinônimo de valores, intenções, crenças e comportamentos? Assim, poderíamos facilmente chegar a conclusão de que nossa cultura é, também, ineficaz, já que as instituições culturais/educacionais não nos auxiliam a refletir e modificar nossa ideologia e, consequentemente, nossos comportamentos. Temos, contrariamente, uma massificação cultural, impedindo qualquer forma de desenvolvimento humano efetivo.

Aqui reside o ponto de equilíbrio, a chave mestra do problema. Todo ser humano necessita adquirir autoconhecimento, olhar pra dentro de si, meditar sobre suas qualidades e fraquezas. É uma necessidade: só assim evoluímos. É algo muito mais amplo do que o nível educacional de cada um. Todavia, só se fala em educação pra cá e pra lá. Como se fosse semelhante a cultura; não é! Por isso, não conseguimos nos livrar da areia movediça. Só ouvimos que “os políticos são culpados”, numa repetição frenética e rude da palavra ‘culpa’, coitada, o que me faz lembrar do filósofo romano Lucius Seneca “Raros são aquelesque decidem após madura reflexão; os outros andam ao sabor das ondas e longe de se conduzirem deixam-se levar pelos primeiros.”

O importante é achar um ‘culpado’ e jogá-lo à fogueira. Os “outros” são sempre os responsáveis pela sopa derramada. Não há um movimento íntegro, voltado para identificar a própria omissão e ignorância. A cultura da zona de conforto, do menor esforço se faz presente, tremendamente enraizada. E assim, a pátria amada continua escrevendo seu paradigma de escassez, de estupidez, de tacanhez, de limitação. Os critérios culturais são muito mais amplos do que os educacionais. A educação deveria ser o fundamento, porém a cultura é a essência. Precisamos aprender e compartilhar, urgentemente, as diferenças entre cultura e educação, além das diversidades entre eficiência, eficácia e efetividade.

Bem, ainda estamos em 2017. Afinal, somos um país muito jovem: são apenas 517 anos apanhando. Mas é o povo quem decide, quem possui o poder de escolher, certo. Caramba, eu devo estar num daqueles momentos de delusão aguda. Melhor eu abrir os olhos, voltar pra este mundinho e continuar a varrer o quintal. São muitas folhas a serem recolhidas.

Niterói, 10 de outubro de 2017

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência emocional e intrapessoal.

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