ENTRE DESEJOS, APEGOS E OBSSEÇÕES: DA NEUROSE À PSICOSE

Wilson M. Moura Ξ October, 25th 2018

A experiência como educador, mentor e life coach vem me proporcionando uma interação com muitos questionamentos e aprendizados. Usualmente, a variável da questão a ser solucionada é que as pessoas sabem o que não querem, mas dificilmente possuem o devido discernimento sobre o que desejam. O mundo vai girando assim e não conseguimos perceber como o sofrimento se estrutura e se manifesta.

O médico neurologista austríaco Sigmund Freud desenvolveu inúmeras teorias relevantes e, de acordo com a Teoria da Neurose, os seres humanos possuem três possíveis configurações psíquicas: somos todos neuróticos, neuróticos graves ou psicóticos. Outros cientistas discordam dessa visão em parte, mas não é difícil negar que o tio Freud nos revelou uma luminosa descoberta.

Resumidamente, neuroses são geradas por conflitos psíquicos envolvendo impulsos, traumas, frustações, angústias, sexualidade e desejos reprimidos, sempre no olho do furacão. Portanto, é fundamental compreender o mecanismo dos desejos e suas consequências.

O desejo possui duas aparências, uma consciente e outra inconsciente, porém é sempre movido pelos condicionamentos, numa manifestação dispersa e dissimulada, que produz um impulso gerador de atividades contínuas, ou seja, uma forma de ação incessante na busca pelo prazer (atração) e, por conseguinte, opondo resistência a tudo aquilo que não seja atraente ou agradável (aversão).

Assim, é uma forma dissimulada e bem estruturada de proteção dos apegos, diretamente proporcional às sensações e às percepções. Não há a compreensão de que os opostos são inseparáveis: o prazer sempre é acompanhado do desprazer, já que uma coisa não existiria sem a outra. Logicamente, esse processo de condicionamento é um dos responsáveis pelo que se costuma chamar de sofrimento. É uma forma de aprisionamento mental, que gera uma busca incessante pelo prazer e uma aversão pelo desprazer. O pensamento passa então a ser comandado pela expectativa de realização do desejo, que inibe a liberdade de ação.

O desejo emerge a partir de vivências anteriores, de percepções previamente formatadas. Ele depende das percepções, que por sua vez, produzirão novos desejos. Quando inconsciente, não há discernimento e, portanto, não nos permite agir com autonomia. É, também, um fator gerador de conflitos, pois se relaciona diretamente com o grau de percepção de cada indivíduo: quanto mais apegado, maiores as possibilidades de aversão, como forma de proteger os próprios conflitos.

Desejos e apegos possuem relações dissimuladas e estreitamente relacionadas. O apego é a atividade contínua de proteção delusória em relação a um objeto material ou mental: é a fixação real do sujeito sobre um objeto, simbolizando o sentido de possessividade, um firme desejo condicionado que produz a avidez e alimenta o ciclo condicionado de sofrimento. Assim, o apego é uma forma de ação incessante da mente que revela as estruturas mentais condicionadas, sendo, contudo, a delusão mais difícil de ser extinta, exatamente pela capacidade mágica de trazer benefícios. É difícil domesticar e suprimir essa aparência enganosa, já que os objetos de desejo ou apego se mostram numa feição extremamente amigável.

Existem quatro capacidades de persuasão do apego: apego às sensações (sons, odores, gostos, formas visíveis e objetos tangíveis); apego às percepções delusórias (conceitos e julgamentos); apego ao modo de conduta ou à falsa ética; e apego aos fatos (fenômenos) como tendo existência inerente, surgindo como passes de mágica, muito bem explicitados por meio do eu e do meu. Essa sequência de ações me reportou ao genial físico alemão Albert Einstein, que outrora dissera “Tristes tempos os nossos: é mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”.

Os mestres budistas apregoam que o melhor antídoto para se lidar com o apego é a renúncia e, de fato, se analisarmos com cuidado, veremos que a renúncia aos conceitos, discriminações, desejos e objetos de apego é uma das atitudes mais sábias que podemos tomar, já que as ações, em sua maioria, são estruturadas a partir da ignorância mental condicionada.

Daí a importância de refletir sobre nossos inúmeros padrões comportamentais. Viver é um processo contínuo de mudanças em todos os aspectos, contudo, a qualidade de vida exige motivação, ponderação, adequação e aperfeiçoamento contínuo. Necessitamos criar hábitos qualitativos, dos pensamentos até as tarefas mais comuns. Assumir a qualidade como uma prática consciente rotineira, rompendo com os processos de dependência condicionada atrelados às questões supérfluas que anulam os movimentos de mudança de mentalidade. Traçar prioridades visando estabelecer uma relação antagônica com os objetos de apego.

A obsessão, que também chamo de aprisionamento é, sem dúvidas, o grande astro da companhia. Sabemos que o desejo condicionado gera o apego que, por sua vez, exacerba o objeto, deturpando sua aparência e fazendo com que se mostre mais atraente do que realmente é. Como resultado dessa fisionomia atrativa, a mente se aprisiona ao objeto, solidamente, numa configuração obstinada que suscitará intensa dificuldade de se separar dele, gerando a obsessão, ou em outras palavras, um processo de dependência comportamental. Esse forte apego pode resultar em várias ações negativas para obter o objeto desejado. Com base nessa visão delusória do objeto, haverá um aprisionamento cada vez maior e, logicamente, será mais difícil de ser compreendido e diluído.

Exemplificando, o processo de condicionamento mental flui da seguinte maneira: a vontade de beber água faz com que se sinta sede, que impulsiona o desejo (em função da sede) de direcioná-la para uma bebida, que ativará o apego, exigindo determinada marca, sabor e temperatura, gerando um aprisionamento emocional e mental. Tudo a partir de uma simples necessidade física de matar a sede.

Este incessante aspecto criativo da mente faz surgir novas experiências, que se apresentam aparentemente livres de complicações, como uma reluzente nova ideia ou uma solução para um problema. Todavia, quando o processo de criação inconsciente oculta outras coisas, formam-se novos impulsos, novos desejos, ou seja, emoções aflitivas camufladas. É como um truque de magia, uma sequência não revelada, em que uma ação oculta a outra: a delusão faz surgir um objeto de desejo que, quando aparece, oculta o outro.

O descompasso nesse processo é que não se consegue perceber essa ocultação, já que a excitação causada pelo surgimento de um novo objeto atraente desvia toda a atenção da mente para ele, que domina a situação: não se vê algo porque se vê algo, ou melhor, quanto mais se vê, menos se vê. A ignorância mental condicionada oculta outras reações a todo instante e, sendo assim, possui uma relação implícita com as estruturas mentais condicionadas, uma espécie de teia que envolve as percepções, as emoções, os sentimentos, os pensamentos, e só permite que se veja através dela. O processo de ocultação é a porta de entrada da experiência cíclica de sofrimento, assim como o processo de criação pode ser a porta de saída. Neste ponto, a grande revelação é a habilidade cognitiva de se enxergar a porta que, de um lado, denota a ignorância mental e, de outro, a sabedoria.

Existem formas explícitas de aprisionamento. Quando nos referimos a alguém, costumamos descrever sua aparência e atos momentâneos, porém, não vislumbramos que a aparência não traduz uma pessoa, assim como uma ação pontual não define um caráter. É muito comum conceituar e julgar as pessoas a partir de seus comportamentos temporários, ignorando a impermanência, numa clara exibição das nossas estruturas mentais enraizadas e de pura inflexibilidade. Não conseguimos enxergar que as ações são sujeitas a ajustes e aprimoramentos. Um indivíduo que age de forma agressiva pode perfeitamente mudar sua motivação e passar a atuar de outra forma. A prática da sabedoria distingue a pessoa dos seus atos e aprende a focar o ato em si, já que boa parte das ações são produzidas sem a devida consciência sobre as causas que as geraram e respectivas consequências. Nesse contexto, o ‘O Pequeno Príncipe’ nos oferece um diálogo elucidativo: “Tu julgarás a ti mesmo – respondeu o rei. É bem mais difícil julgar a si mesmo que qualificar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdadeiro sábio”.

Precisamos mudar nossa perspectiva e focar na ação e sua qualidade, e não quem a pratica. Ao trazer o foco para as ações de alguém, deixamos de rotular e/ou discriminar, sendo uma maneira muito mais inteligente e proveitosa de se lidar com as situações, já que as ações podem ser administradas. Esse exercício virtuoso de espontaneidade, de livre-arbítrio, de liberdade consciente de ação, nos conduz, definitivamente, a uma nova filosofia de vida.

Como nas mandalas, podemos entender nitidamente a fórmula atrelada ao processo de dependência comportamental: a ação incessante faz germinar o desejo condicionado, emergindo o apego que, por sua vez, desenha o aprisionamento. A compreensão desse movimento mental e emocional nos possibilita elucidar nossas atitudes e comportamentos, e mudá-los.

Já as psicoses são diretamente proporcionais aos apegos e aos aprisionamentos, sejam eles conscientes ou não. E convenhamos, pelo andamento da carruagem, estamos muito mais para psicóticos do que pra neuróticos; não conseguimos nos livrar das obsessões e voltar a normalidade. E olhe que eu ainda nem analisei a perversão, uma das grandes divas da psicose.

Niterói, 25 de outubro de 2018

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências.

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Este post tem 2 comentários

  1. João Luciano

    Parabéns pela dialética do supra texto, caro, amigo!! A reflexão permite-nos mergulhar em uma densa e rica experiência de descobertas.

    1. Wilson M. Moura

      Prezado João, agradeço pela gentileza, desejando boas energias.

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