ENTRE BRUXOS, BRUXAS E CALDEIRÕES

Wilson M. Moura Ξ August, 15th 2019

Existes crenças que nos trazem percepções de que as coisas acontecem por si só, do nada; outras nos propiciam atitudes mais ponderadas, tais como a capacidade de entender que todos os fenômenos são gerados por razões precedentes, num movimento natural de causas, condições e consequências. O livre arbítrio nos possibilita optar por umas ou outras, conduzindo o nível de qualidade das nossas ações.

As crenças, então, vão se unir aos valores e intenções formatando as nossas ideologias, que, por consequência, moldam nossos comportamentos explícitos (ações faladas e físicas). Essa atividade complexa e interdependente é o que chamamos de cultura. Portanto, a cultura de um povo é configurada pelo amálgama (mistura) das suas crenças, valores, intenções e condutas/costumes.

No Brasil, a maioria esmagadora do seu povo crê que possuímos todas as condições de temperatura e pressão para nos tornar um Estado moderno, com equidade e bem-estar social. Contudo, o status quo vigente é de ampla mediocridade, de significativa insensatez. Então quais seriam os motivos inibidores, de tantos paradoxos? Nossa cultura é virtuosa? Por que não conseguimos transformar nossas ideologias em prosperidade? Seria vontade divina ou obra de bruxos e bruxas? Ou será que existem forças ocultas e demoníacas que nos mantém atrelados a um ciclo constante de sofrimento?

Para desvendar esta charada necessitamos entender os ingredientes inseridos efusivamente no caldeirão da cultura brasileira: confusão mental, complacência, esquecimento, dúvida negativa, orgulho, arrogância, teimosia, dispersões, desagregação, descomprometimento, desorganização, indisciplina, irresponsabilidade, racismo, homofobia, hipocrisia, falsidade, corrupção, corporativismo, etc. Uma conjunção de sentimentos aflitivos, dissimulados, que não nos permite evoluir, nos mantendo aprisionados à estupidez e ao contínuo desequilíbrio social. Mas, não seriam essas as características das bruxas malévolas e desprovidas de empatia e compaixão?

Mesmo que tivéssemos outros componentes virtuosos, e existem, o conjunto final acabaria estragado, pois as porções podres contaminam as sadias. Negá-los seria um total contrassenso, uma ausência completa de autoconhecimento, mentalidade de crescimento e maturidade emocional. Valores, crenças e boas intenções são atitudes apreendidas no seio familiar e possuem conexões diretas com o caráter de cada indivíduo. Elas podem, e devem, ser aprimoradas durante o curso educacional (tácito), com a formação da personalidade: são processos paralelos e interdependentes, mas distintos.

Portanto, existem inúmeros motivos óbvios, e são culturais, mais abrangentes do que os educacionais. Basta focá-los com os olhos da consciência e entender que as pessoas são livres para efetuar escolhas, a todo momento, o que nos faz concluir que a qualidade de vida de um povo é concebida a partir das suas atitudes e comportamentos.

É preciso dimensionar os sentimentos aflitivos atenciosamente, e reconhecê-los, com visão sistêmica e integridade. Todos nós temos nossa parcela de ignorância, de letargia e preguiça mental. Ir contra o óbvio ululante é o mesmo que afirmar que a Terra é plana ou que as emissões de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso não afetam nosso planeta.

Nós possuímos o direito de produzir crenças niilistas, de achar que as coisas germinam sozinhas, sem condições prévias, assim como continuar emanando críticas e dúvidas negativas, defender pontos de vista extremistas, resmungando e culpando os outros pelos problemas, ou até mesmo apregoar uma caça aos bruxos e bruxas. Afinal, o livre arbítrio é gratuito, uma propriedade intrínseca de cada indivíduo. Porém, as experiências prévias da Idade Média evidenciaram ser essa uma ação integralmente equivocada.

Mas, pela mesma via, também podemos nos direcionar rumo ao caminho da disciplina, introspecção e da atenção plena, reconhecendo-nos como bruxas e bruxos sábios e compassivos, assumindo nossa parte na composição da fórmula mágica que pode traduzir nossa filosofia e qualidade de vida. As soluções passam pela sociedade, necessariamente, pela assunção da responsabilidade cívica de cada cidadão.

Todo país possui seu caldeirão. Resta-nos saber escolher os ingredientes e vislumbrar suas consequências.

Niterói, 15 de agosto de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências.

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