DO PESSIMISMO À ESPIRITUALIDADE

Wilson M. Moura Ξ October, 2nd 2019

Pessimismo, otimismo e realidade são termos utilizados frequentemente e, sendo assim, necessitam de uma boa dose de discernimento e reflexão. Talvez por isso o cineasta Woody Allen satirizava, afirmando que o pessimista atinge o fundo do poço, e o otimista acha que dá pra cair mais. William George Ward, teólogo inglês, indicava que “O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude, e o realista ajusta as velas”. O dramaturgo Oscar Wilde dizia que “O pessimista é uma pessoa que, podendo escolher entre dois males, prefere ambos”.

Carlos Heitor Cony, nosso conhecido escritor, propagava que otimismo é sinônimo de má informação. Já o escritor Ariano Suassuna afiançava que “O pessimista é um chato; o otimista, um tolo. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. O fato é que o pessimismo não é salutar em nenhuma circunstância: é uma pedra constante no sapato, um desperdício de tempo e energia.

O otimismo possui três vertentes: insensatez, religiosidade e ponderação. É um assunto que exige certo cuidado, pois envolve sensibilidade, respeito e aspectos culturais, religiosos e espirituais.

A primeira vertente é relacionada à falsidade, dissimulação ou obsseção, uma espécie de provocação inventada para nos impedir de aceitar os acontecimentos como são. Há uma neurose de que os desejos se realizem sem que sejam desenvolvidas causas precedentes, onde todas as expectativas são creditadas em fatores externos, num movimento bem próximo do devaneio e irresponsabilidade. É fundamental nos conscientizarmos de que a realidade rude e insana é mais transcendente do que o otimismo dissimulado. Tudo depende de causas e circunstâncias, sendo que o único poder que possuímos é o interior. Este tipo de otimista fundamenta-se nas dúvidas e críticas negativas, invariavelmente.

A segunda variável do otimismo vem escoltada porcrenças e valores religiosos. Religiosidade é uma ação ligada a fé e, portanto, questões emocionais, que podem produzir limitações, apegos e/ou aprisionamentos (obsessões). Basta nos reportarmos à reflexiva expressão do pintor espanhol Francisco de Goya “A imaginação abandonada pela razão produz monstros impossíveis; quando está unida, é a mãe das artes e da fonte de suas maravilhas”.Sendo assim, usualmente, carece de discernimento e análise ponderada, pois deposita as expectativas exclusivamente nos objetos externos, numa forma de isenção de responsabilidades, mesmo que inconsciente. Não adianta ser otimista e ficar esperando que as coisas caiam do céu. As crenças, se não forem harmonizadas com liberdade, são, muitas vezes, a morte da razão. A fé é a última a morrer, reza um ditado popular, porém não é um aspecto filosófico ou científico, e sim religioso, logo, irracional.

Já a terceira vertente é relacionada à sensatez (ponderação) e às leis da natureza. Para que faça sentido, necessita estar alicerçada em dados, objetivos, metas e planos de ação, numa base legítima; a recompensa esperada deve vir por meio da visão sistêmica, conhecimento, planejamento, esforço, paciência, comportamento reto. Nos preparamos e aguardamos, mas conscientes de que o que desejamos pode não vir, ou apenas parte do desejado. Afinal, a vida é probabilística, isto é, os desejos não se realizam automaticamente. Além disso, não sabemos se o que fazemos, e a forma como agimos, é a mais adequada e sábia. Aqui, há lugar para a fé, desde que não traga limitações. Sim, existem muitas variáveis no otimismo, o que gera presunções e frustrações, quase que automaticamente.

Este é o momento adequado para estabelecermos um paralelo entre fé e esperança. A esperança foi tema de reflexão do poeta Olavo Bilac, que a definia a como a virtude que dá ao Homem o dom de suportar o mundo. É uma qualidade espiritual, um método mágico, pessoal e intransferível, pelo qual aprendemos a ser realistas com a visão no futuro e, portanto, um fator mental que aquece a alegria, compaixão, amor e a equanimidade. Mas para que possamos conectá-las com as centelhas divinas, precisamos temperá-la com três outros ingredientes: valores, intenções, crenças e comportamentos virtuosos, que façam sentido para todos e sejam coerentes com as leis da natureza.

A esperança é uma forma de vontade auspiciosa, de pureza, porém, exige certo grau racional, de consciência sobre o modo de funcionamento da natureza: é preciso saber lidar com os momentos indesejados. Aqui entra o entendimento precioso da regra da meritocracia, assim como o da escolha espontânea: aprender com o sofrimento e não sofrer com ele. Sendo assim, a esperança deve estar sempre conectada com a liberdade de ações, isto é, com a consciência, discernimento, resiliência e paciência.

Assim, a esperança é um fundamento da vida, espécie de fé genuína, uma vontade fundamental de desenvolvimento. Contudo, como ferramenta de evolução espiritual, não deve arregimentar expectativas, exigências ou cobranças. É um instrumento sagrado e mágico de união e interação com aquilo que ainda não conseguimos deslumbrar, ou seja, nossa essência divina. A esperança nos integra com a essência natural da mente, com a sabedoria inata, a intuição genuína. É como desvendar um segredo que nos une ao nosso aspecto onisciente. Assim, existe uma diferença sutil e relevante entre fé e esperança. A fé é um aspecto religioso; a esperança uma particularidade fundamental da espiritualidade.

Espiritualidade possui uma conexão direta com a luminosidade, força ativa da mente, que produz uma sensibilização em direção à liberdade de pensamento, espontaneidade de ação e esperança. Nela, distinguem-se três fundamentos relevantes: as leis universais da interdependência, impermanência e causa e consequência.

Em outras palavras, a prática da espiritualidade é um caminho para compreendermos que todos os fenômenos, assim como a mente, são formas de energia e, portanto, geram estados cíclicos, interdependentes e passíveis de transformação. Há uma extrapolação dos desejos e uma aproximação com a consciência, discernimento e as regras de funcionamento da natureza. São distinções muito sutis mas, se bem compreendidas, podem gerar um diferencial significativo.

Portanto, eu costumo conceituar a espiritualidade como sendo a habilidade de agir em paz, o nível de liberdade que se obtém em relação às próprias percepções. Quanto mais apegados aos conceitos e julgamentos, menos livres estamos, menos criatividade geramos. Mais afastados ficamos da pacificação da mente.

Nossas ações estão sujeitas à mudança, para melhor ou pior, dependendo das causas e circunstâncias germinadas. Destarte, podemos nos tornar ‘deuses’ e atingir os mesmos níveis de vibração energética emitidos por eles. Exercer o livre-arbítrio, aprendendo a exercitar a força do pensamento e da sabedoria em favor de todos. É um dos exercícios mais árduos e benéficos do dia a dia. A escolha consciente desse ritual é o caminho mais seguro para que as intenções esperançosas se tornem reais. Afinal, “A esperança é o sonho dos acordados”, discorria o sábio Aristóteles.

Portanto, a espiritualidade evolui conjuntamente com a esperança e a paciente análise da realidade, num relacionamento íntimo com o poder de transmutação pessoal e coletivo. É um dos pilares de sustentação da vida, preciosa ferramenta de evolução espiritual. Uma vontade genuína de desenvolvimento que sublima a alegria, a equanimidade, compaixão e o amor.

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, mentor, escritor e mestre em meditação, especialista em mentalidade de crescimento e inteligência emocional.

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