DIREITA OU ESQUERDA?

Wilson M. Moura Ξ November, 1ft 2017

O sr. Direita foi casado com a sra. Esquerda durante quase quarenta anos. Geraram treze filhos, que lhes deram vinte netos. Sempre tiveram uma relação conturbada, mesmo tendo sido casados por tanto tempo. Dizem as más línguas que cinco, dentre os treze filhos, são de outros homens, porém a sra. Esquerda nega veementemente: “Nunca traí meu marido”! O fato é que a relação entre ambos sempre foi de intriga, cinismo e falsidade. Toda a vizinhança sabe que o sr. Direita tinha casos com outras mulheres da redondeza. Está com 65 anos e estudou em ótimas escolas públicas nos anos ’60 que lhe proporcionaram um apreço pela leitura, trazendo-lhe um bom conhecimento generalizado. Bom falante, é capaz de entrar em qualquer conversa, principalmente quando o assunto é política, sua paixão.

Já a sra. Esquerda, 45 anos, também estudou numa escola pública, mas por ser muito mais jovem que o ex-marido, teve um nível educacional péssimo, de acordo com a educação pública brasileira dos últimos 30 anos. Atualmente, se interessa exclusivamente a assuntos relacionados às novelas e idas a bailes funks, sempre na primeira sexta-feira de cada mês. Mas também ama a democracia. Lá se vão muitos anos que ambos trabalham para partidos políticos.

Mesmo separados, ainda vivem no mesmo bairro e frequentam o mesmo botequim. Noutro dia, ao ver sua ex entrar no bar, o sr. Direita divagava com amigos: “Hum, o que a Esquerda vem fazendo? Será que ela anda a chorar ou a sorrir? Talvez a reclamar, já que é uma das suas características marcantes. Não faz nada sem se lamentar, sempre se achando superior. Mas, superior que nada; superior sou eu, afinal me chamo Direita. E viva a democracia”.

Enquanto isso, numa mesa do outro lado, a sra. Esquerda comentava com amigas que gostaria de ter uma lâmpada mágica de Aladim, daquelas que iriam emponderá-la definitivamente, sem que ela fosse obrigada a se queixar da vida: “Vou ensinar ao sr. Direita como se faz as coisas! Tá pensando o que? Eu sou mais eu. Nunca precisei nem preciso dele, afinal vivo num país democrático. Sou independente. Tá pensando o que?”.

Ambos, tanto o sr. Direita, quanto a sra. Esquerda, estavam a confabular com seus pares, tecendo ideias sobre como poderiam ser superiores uns aos outros, sem conseguir enxergar que eram vizinhos, que haviam tido vários filhos juntos, que se encontravam imperativamente, que já haviam dividido o mesmo teto por vários anos: necessitavam se harmonizar para equilibrar a família. Além disso, nunca dialogaram sobre como poderiam desenvolver novas circunstâncias para beneficiar a todos. Em outras palavras, que uns dependiam dos outros e, sem a ajuda do outro, não teriam condições adequadas de contentamento mental. Passariam a vida toda contando suas miudezas, tentando encontrar subterfúgios toscos para bradar em alto e bom som: eu sou melhor. Vou obter a coroa e nunca mais largá-la! O poder a mim pertence. Afinal, eu defendo a democracia, a represento melhor do que o outro, com perfeita aptidão.

Ao ouvir os comentários de ambos os lados, sentado no meio do apertado botequim, seu Zé esbravejava entre uma pinga e outra. Democracia? Como é que é? Ah, sim, é aquele tal de sistema que elege os amigos do sr. Direita e da sra. Esquerda, sem que necessitem estar preparados, sem qualquer competência específica. Não precisam nem saber ler e escrever corretamente. Nesse pacote também tem um tal de ‘sufrágio universal’, que nos dá o direito a voto para eleger os amigos do sr. Direita e da sra. Esquerda. Além do mais, eles ganham um dinheirão, têm milhões de mordomias e por aí vai. E a gente ainda tem que pagar pra que esse tal de ‘sufrágio’ aconteça. Acho que vou me aproximar do sr. Direita… Bem, mas como adoro a cor vermelha, talvez seja melhor procurar a sra. Esquerda, sua cor favorita, e pedir uns favorezinhos. De qualquer forma, sempre ouvi dizer que os dois estão sempre dispostos a um ‘favorzinho amigo’. Afinal, gasto todo meu salário aqui no botequim. Quem sabe consiga que eles me ofereçam umas garrafas de pinga por semana. Vou adorar!

Sentado ao lado do seu Zé, dona Deusinha, semianalfabeta, tomava um gole de cidra e gritava com o dono do botequim: “A bebida tá quente!” No intervalo entre um gole e outro, ela conversava com seu parceiro diário num tom de extrema lucidez. Meu amigo, quem tem o direito de votar nesse tal de sistema? Qualquer um? Seu Zé titubeou e balançou a cabeça, sem dar uma resposta. Quando surge o seu Tonho, dono do bar, trazendo uma cerveja gelada na mão, afirmando: claro, qualquer um pode votar. Tá tudo dominado. Afinal, somos todos filhos de Deus, não é mesmo.

Niterói, 1 de novembro de 2017

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência emocional e intrapessoal.

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