DELUSÃO: QUANDO ASSUMIMOS O ILUSÓRIO COMO SENDO REAL

Wilson M. Moura Ξ October, 28th 2019

As palavras ilusão e delusão possuem significados distintos. A ilusão é um engano, uma percepção equivocada de um objeto, e pode resultar ou não numa delusão. As ilusões são interpretações enganosas geradas por conteúdos emocionais ou alguma variável circunstancial, seja pela distância, efeito ótico ou fenômenos ambientais que proporcionem o engano de um ou mais sentidos. Portanto, é a compreensão distorcida ou falsa de um objeto existente, real, iludindo os órgãos sensoriais, mais frequentemente por meio da audição e da visão.

Como exemplos, temos o arco-íris, algum som que se apresente numa forma misteriosa, uma formação rochosa que tenha conotação religiosa, etc. Usualmente, as ilusões possuem relação direta com as sensações e as emoções, como saudade, carência, ansiedade, estresse e medo. Por si só, a ilusão não constitui um estado emocional aflitivo, mas pode indicar um estado patológico. A ilusão não contém necessariamente uma delusão.

Já a delusão é um fator mental muito mais complexo que conduz a um processo cíclico de condicionamentos aflitivos, pois é alicerçado na incapacidade de perceber os fenômenos como realmente são. A partir de uma ilusão, cria-se uma delusão, uma nova percepção ou crença, que pode ser racional ou irracional, ocasionando uma perda de controle sobre a realidade. É uma atividade de ação incessante da mente que nutre novas experiências condicionadas e contém necessariamente uma ilusão.

Assim, a delusão é a percepção ilusória sobre um objeto inexistente, ou melhor, é uma percepção sem o estímulo externo: acontece quando a mente cria uma ilusão e acredita que ela seja verdadeira. Possui uma relação com a subjetividade do ‘real’, pelo surgimento de uma crença ou convicção inflexível que o indivíduo manifesta em relação à sua criação, sendo, desta forma, real para ele. As motivações e os comportamentos passam a girar em função dessa nova crença, isto é, você cria um ‘monstro’ e passa a achar que ele é verdadeiro, num movimento interdependente, inseparável e condicionado entre você, o criador, e a delusão, a criatura.

É, pois, o ato de ‘criação’ mental apreendendo o que não é real, uma forma de experiência pessoal em que não se consegue enxergar a situação como ela é. As necessidades emocionais subjetivas suplantam, em muito, a realidade objetiva, causando a necessidade de construir uma nova realidade, a qual, defensivamente, se constitui de delusões com o propósito de atender a apegos, impulsos e obsessões, isto é, as ações incessantes e inconscientes da mente se sobrepõem à consciência e ao discernimento. Um exemplo corriqueiro disso é a forma como costumamos rotular as pessoas sem conhecê-las: fulano é antipático, sicrano é vazio de ideias, ou, o que é pior: a culpa é dos outros, nunca minha.

As delusões são, portanto, percepções internas, sem conexões com estímulos ou variáveis externas. Guardadas as devidas proporções, também podem ser comparadas a alucinações, estados de transe e delírios dos estados psicóticos (visualização de um oásis no deserto, ataques de animais, pessoas sendo transformadas em monstros, etc.). Porém, as delusões são mais sutis do que as psicoses e também podem produzir venenos mentais muito bem estruturados e criativos, ou seja, emoções e sentimentos aflitivos, como raiva, ódio, orgulho, ciúme, inveja, falsidade, hipocrisia, avidez, autoflagelações, a não assunção de qualquer responsabilidade sobre suas próprias ações, as crenças que facultam o poder ao outro, a ‘culpa’, e por aí vai.

Mas é fundamental entender que a causa raiz da delusão é a ignorância mental condicionada, ou seja, a incapacidade de compreender os fenômenos como realmente são. Um processo quase que automático da mente relacionado a inconsciência, ausência de discernimento, desejos ocultos, apegos e obsessões. Sendo assim, a delusão pode ser definida como o ato de criar situações e experiências ilusórias que ocultam a realidade e geram um aprisionamento bem consistente, uma forma de obsessão às próprias convicções.

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, mentor, escritor e mestre em meditação, especialista em mentalidade de crescimento e pacificação da mente.

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