CULTURA E EDUCAÇÃO: PARADIGMAS E PARADOXOS DA SOCIEDADE BRASILEIRA

Wilson M. Moura Ξ May, 22th 2019

Educação e cultura são os pilares de sustentação do nível de qualidade de vida de qualquer nação. Simbolizam os fatores que empreendem e impulsionam todos os outros critérios essenciais, sejam de bem-estar, satisfação, saúde, prosperidade, conforto e direitos universais. Portanto, é fundamental entendermos suas definições, prerrogativas e capilaridades.

Palavras provenientes do latim, possuem significados e funções codependentes, inseparáveis e com algumas sutilezas. Educação origina-se do termo educar, do latim educare, composto pela união do prefixo ex (exterior/fora) e ducere (conduzir/direcionar). Significa, portanto, direcionar para fora, tendo sido utilizada no sentido de guiar as pessoas para o mundo exterior, para fora de si mesmas, visando conviver adequada e harmonicamente em sociedade. Logo, educação é o ato de formação cognitiva dos indivíduos de uma sociedade, estimulando-os ao desenvolvimento intelectual, criativo e disciplinar, assim como a ação de inspirar a regulação, interação, ética, interação e responsabilidade cívica.

Cultura é o conjunto de manifestações mentais, emocionais, artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de uma civilização e, por conseguinte, se origina na composição da ideologia correspondente, ou seja, seus valores, intenções e crenças. Isto posto, a cultura nada mais é do que a ideologia expressa por meio do comportamento; nossas ações mentais, faladas e físicas são a expressão pura e simples da nossa ideologia, determinando o paradigma (modelo) comportamental de um povo.

Ao relacionarmos os pontos de interseção entre educação e cultura, visualizamos nitidamente a indissociabilidade entre elas: são aspectos interdependentes e devem ser aprimorados conjuntamente, proporcionando o arquétipo de civilidade e socialização de uma nação, ou não. Todo indivíduo possui sua ideologia, sendo que uns com valores, crenças e intenções aperfeiçoadas, sistêmicas e ilimitadas, outros com características grosseiras, dissimuladas e aprisionantes.

Assim, o nível educacional de um povo expressa nitidamente a sua cultura, ou, em outras palavras, é uma resultante (consequência) da sua cultura: quanto mais aperfeiçoados os valores, intenções, crenças e padrões comportamentais, melhores os padrões educativos. Logicamente, a relação contrária é verdadeira, que nos faz concluir que o Brasil necessita efetuar um choque na sua cultura, efetuando uma revisão rígida e qualitativa. A cultura brasileira adequou-se confortavelmente a visões delusórias, difusas e ineficientes, numa profusão de inúmeras distrações, introduzindo uma simbiose enraizada entre criador e criatura: a população cria seus monstros e não consegue enxergar sua própria criação. Com isso, não prioriza o aprimoramento das inteligências intrapessoal (autoconhecimento), emocional (lidar com as emoções), cognitiva (aprendizado contínuo) e interpessoal (relacionamentos sadios), fazendo germinar indivíduos que não leem textos significativos e necessários, não dialogam entre si, além de jovens super mimados, muito dispersos (brasileiros passam em média 220 minutos por dia nas redes sociais, ficando atrás somente dos malaios), e que se permitem influenciar sem qualquer investigação. As escolhas cotidianas são baseadas na popularidade e na quantidade, raramente em critérios de relevância e qualidade, cultivando uma cultura popular que sabe o que não quer, mas não sabe o que quer, num implícito abismo educacional e cultural.

A cultura transcendente é aquela que fomenta valores como consciência, discernimento, sensibilização, assertividade, integridade, integração, conformidade, pensamento crítico, planejamento, priorização, disciplina, comprometimento, criatividade efetiva e responsabilização. São essas atitudes que irão sustentar e inspirar a educação com atributos que transmitam qualidade. Necessitamos buscar inspiração nos mestres gregos e agregar os dois fatores da èthike: éthos (valores, crenças, costumes) com êthos (intenção com discernimento e sabedoria).

Neste contexto, a cultura nacional possui marcas explícitas: confusão mental, orgulho, desagregação, descomprometimento, desorganização, irresponsabilidade, dispersões múltiplas, indisciplina, superficialismo e imaturidade emocional. Definitivamente, nosso âmbito cultural não propõe o desenvolvimento de cidadãos, mas sim de meras pessoas. Não fomos e não somos conduzidos a desenvolver valores inteligentes e ponderados, que inspirem e deem suporte as nossas intenções e crenças, no sentido de nutrir transformações hábeis, solenes e sustentáveis, de dentro para fora. Configuramos, pois, uma autêntica síndrome de vitimização, de dimensões continentais.

As coisas estão, não são; os problemas existem, sempre existirão, com equações complexas que exigem simplicidade, consciência, discernimento, visão sistêmica, dimensionamento, regulação, disciplina, vontade, paciência e uma boa pitada de concentração meditativa. Afinal, o genial matemático grego Arquimedes de Siracusa bradou “Heúreka”, dentro de sua banheira, após solucionar um dilema introduzido pelo Rei Hierão. No mais, só nos resta torcer para que a memorável psicanalista austríaca Melanie Klein estivesse em um dos seus momentos de humor, quando discorria “Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso do paraíso”.

Meditar, necessitamos!

Niterói, 22 de maio de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência cognitiva e emocional.

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