CONTRASTES E CONTRASSENSOS

Wilson M. Moura Ξ December, 18th 2017

Acabei minha prática de meditação, abri os olhos, respirei profundamente e lembrei-me de uma expressão portuguesa no período em que Portugal foi invadido por Napoleão Bonaparte: afinal eu havia focado sobre os caprichos e disparates que mantém “tudo como dantes no quartel de d’Abrantes”. Sim, o Brasil é o nosso Abrantes. Em geral, pregamos uma tal de qualidade de vida, mas não conseguimos ver que a maturidade emocional depende das circunstâncias vivenciadas e de como lidamos com elas. Desfrutamos de uma sociedade dominada pelo pensamento restrito à revolução tecnocientífica, como se tivéssemos dois mundos desconectados do passado, presente e futuro: um que não conseguiu identificar e solucionar seus graves problemas e outro, que ainda não começou a pensar integralmente, sem ideologias transparentes. Nesse contexto, o filósofo alemão Martin Heidegger dizia que “As organizações de hoje não têm ideologia; a ciência não pensa!”.

Na realidade, vivemos remando contra a maré, numa explícita dificuldade para praticar a visão sistêmica e reconhecer inúmeras limitações; o orgulho é fortemente enraizado. Passamos de um período militar, medíocre e tosco, para um período dito ‘democrático’, medíocre e estúpido. Criam-se as instituições, contudo delegam-se responsáveis incompetentes, malévolos e irresponsáveis. Temos governabilidade, em tese, mas não temos governança. Existem pessoas bem capacitadas na máquina pública, porém impossibilitadas de exercer funções públicas estratégicas, infelizmente, devido às ‘discricionalidades legalizadas’.

Venho pesquisando sobre os principais contrassensos na sociedade brasileira e cheguei a algumas circunstâncias nefastas que agridem, usualmente, nossa condição de equilíbrio emocional e cognitivo. A omissão e negligência dos intelectuais, incapazes de inspirar mudanças progressivas. A ineficácia da falsa democracia que consente que a maioria, totalmente despreparada, decida em detrimento do discernimento. A ambivalência do poder legislativo, onde seus membros são eleitos sem que apresentem competências inerentes, remuneração absurda, não respondam às leis civis, e possuam o poder de indicar cargos públicos. A especialização do poder executivo em burocracia, ineficiência e corrupção. A leniência, obscuridade e menosprezo do poder judiciário em relação à justiça. A política de segurança pública, nunca direcionada a médio e longo prazo. O sistema educacional que privilegia o lógico em detrimento do emocional. As políticas públicas com os menos favorecidos: raramente são educacionais e não os ensinam a andar por si só. O famigerado e falho sistema de saúde. A completa falta de diálogo entre as polícias. A permissividade dos agrotóxicos: estúpida, ampla, geral e irrestrita.O firme pacote de sentimentos aflitivos da população: orgulho, dispersão, desagregação, irresponsabilidade, desorganização, descomprometimento, indisciplina, aliados à confusão mental e letargia.

Temos uma economia pujante, dentre as 9 maiores do mundo, contudo, a impressão é de que o povo brasileiro possui uma fixação para ser inserido nos anais negativos do livro “Guinness”. Afinal, vamos batendo recordes mundiais sucessivos: poder legislativo mais caro do mundo, maior imposto, energia mais cara, maiores juros, pedágios, combustíveis e automóveis com os preços mais exorbitantes. Sim, mas não paramos por aí. De acordo com o Relatório mundial de competitividade 2017, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil é o segundo país mais corrupto do mundo (perdemos apenas para a Venezuela), além de possuir o maior índice de mortes de policiais do planeta. Eu, objetivamente, também acrescentaria nosso poder judiciário com o título de mais lerdo do mundo e altíssimo índice de corrupção, já que ela pouco existiria sem a sua anuência. Pena não ter encontrado pesquisa internacional sobre o povo mais letárgico do mundo, porém não nos é difícil prever que o brasileiro estaria entre os primeiros postos.

E os sistemas adotados? São insensatos, com raras exceções. O sistema financeiro privilegia à cultura do preço mais alto e pagamento a longo prazo, embutindo vários custos no valor original do produto, transformando-o num hábito “comum” e dispendioso. O sistema político é, na realidade, um instituto de negociatas. O custo para se manter a máquina política é incalculável: quem conseguiria calcular exatamente o valor da corrupção, seja das obras, seja das campanhas políticas. E o valor da burocracia e ineficácia? No campo jurídico, os poderosos escritórios de direito são contratados pelas grandes organizações e, de fato, ensinam como burlar as leis. No critério cidadania, temos uma ausência radical de humildade, responsabilidade, comprometimento, concentração, disciplina e agregação. A cultura educacional implementada forma cidadãos com expertise nas ciências exatas e tapados nas ciências emocionais e filosóficas. Por vezes acho que parecemos um bando de nômades procurando pelo novo Moisés e a terra ideal prometida, porém sem a mínima noção das verdadeiras necessidades e do que queremos.

Por outro prisma, podemos constatar uma imensa dualidade no seio da população, onde alguns intelectuais defendem a democracia e a libertinagem, criticando a ditadura. Admitem que o poder público seja omisso, cometa atrocidades, furte escancaradamente, e se justifiquem nos “golpes contra a presidência da república”, num movimento totalmente irracional, que consubstancia a tese de que intelecto não é sabedoria. Outra parte do povo, obrigada a declarar o imposto de renda, sustenta o Estado com impostos e taxas, mantendo-se completamente esmagada, demolida pela imbecilidade geral e irrestrita que emana dos nossos 3 poderes (sim, com p minúsculo).


Além disso, temos a esmagadora maioria da população com amplo acesso a informações. Outrora dita ‘ignorante’, só pensa nela, visa seu próprio benefício, gera filhos indiscriminadamente, polui o ambiente, não paga impostos e, o que é pior, não lhes é atribuída qualquer responsabilidade ambiental ou social. Só merecem bônus, sem qualquer ônus, num movimento totalmente insustentável. Um tremendo contraste.

Pobres Direitos Fundamentais! E olhem que já estão na quarta geração, hein! E o Direito Natural? Esse então, coitadinho. Qual seria a importância de um conjunto de normas genuínas, inerentes à sociedade humana, que poderiam se impor a lei escrita? O termo qualidade de vida é denegrido e insultado, sendo, na realidade, a última prioridade. E as famigeradas “reformas”, sempre na moda e nunca sustentáveis. Definitivamente, aprender a identificar as nossas limitações não é uma tarefa fácil. Mas elas aí estão, nítidas e eminentes. Deveria ser um exercício compulsório para todos mas, ao contrário, faz a opção pelo menor esforço.

Este quadro exibe claramente a fragilidade da nossa sociedade, envolvida numa bolha cognitiva que se opõe à paz interior. Imagino o que o sumo poeta florentino Dante Alighieri estaria escrevendo hoje, caso estivesse entre nós. São padrões aviltantes, que indicam graves equívocos culturais constituídos. É fundamental aprender a transformar informação em conhecimento e implementar novos hábitos. Tomar ciência sobre a diferença entre éthos e êthos, ou seja, construir modelos de vida com sabedoria. Nossas escolhas políticas produzem resultados lentos, de alto custo, pouco significativos e de grande poder aflitivo. Precisamos abandonar esses sistemas políticos e culturais vigentes, totalmente atrofiados, e adotar o sistema do SE (Simplicidade e Efetividade). Talvez, assim, consigamos nos livrar do paradigma de insensatez que, persistente, não larga o bastão.

Niterói, 18 de dezembro de 2017

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência emocional e intrapessoal.

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