COMPAIXÃO

Wilson M. Moura Ξ May, 26th 2020

A compaixão pode ser traduzida como sendo a firme e ilimitada intenção de que todos os seres estejam livres do sofrimento e das suas causas geradoras. Portanto, há dois aspectos essenciais a serem apreciados: a intenção de que os seres não sofram e a vontade de gerar ações que cessem o sofrimento. Aqui reside sua complexidade, pois não adianta intencionar a cessação do sofrimento e nada fazer para alcançar o objetivo. Além de intencionar a compaixão, é preciso colocá-la em prática, ou seja, implantar e implementar, no cotidiano, os fatores de concentração meditativa e os fatores auspiciosos de desenvolvimento. Desse modo, a compaixão é um movimento espontâneo, a vontade incomensurável de que todos os seres se libertem do sofrimento por meio da compreensão do próprio sofrimento.

A palavra compaixão é usual e equivocadamente confundida com o sentimento de ‘pena’, uma forma de sentimento aflitivo, extremamente limitado e inconsciente. É comum ouvirmos a expressão “coitadinho, eu tenho pena dele”. Esse sentimento reflete a antítese da compaixão, já que o ‘sentir pena’ oculta várias emoções aflitivas como orgulho, egoísmo, aversão, miséria mental, punição, melancolia, depressão, ou seja, o sofrimento em si. Assim, ela nos impulsiona a uma intenção de liberdade, de cessação do sofrimento e, portanto, não nos remete ao sofrimento.

A compaixão envolve quatro estágios. O primeiro deles se refere ao nítido entendimento de seus dois aspectos: a compreensão do sofrimento dos seres vivos e suas causas e, consequentemente, uma firme motivação para implementar mudanças comportamentais. O segundo estágio é o desenvolvimento da generosidade para consigo mesmo, a fim de ter paciência com as próprias limitações e evitar autopunições. O terceiro diz respeito à agregação de valores virtuosos, sem prejudicar os outros, adicionando autoconhecimento e avigoramento interior. O quarto estágio é aquele em que nos colocamos disponíveis para ajudar a remover o sofrimento dos outros, assim como para prevenir e evitar que sejam prejudicados. Este quadro de ações me fez cair na real e constatar, definitivamente, que a prática da compaixão é essencial; sem ela, não temos como obter a felicidade.

Imediatamente, reportei-me a exemplos de compaixão, como a do indiano Mohandas Karamchand Gandhi, chamado carinhosamente de mahatma pelo seu povo (termo que, em sânscrito, significa ‘grande alma’); a albanesa Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, conhecida como Madre Tereza de Calcutá, cujas ações serviam exclusivamente à cessação do sofrimento alheio; assim como o frade italiano Giovanni di Pietro di Bernardone, nosso São Francisco de Assis. Também há grandes seres ainda vivos, como o tibetano Jetsun Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, que, de acordo com a tradição tibetana, simboliza a 14a reencarnação do Buda da Compaixão, ou o monge vietnamita Thich Nhat Hanh. Todos eles nos brindam com mensagens de pacificação interior e apontam para os caminhos que nos levam à cessação do sofrimento e suas causas. Há milhares de outros exemplos, menos célebres, de pessoas que agem movidas por uma consciência genuína, como os voluntários do Programa Médicos sem Fronteira e do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, que proporcionam ajuda humanitária incontestável.

Logo, a compaixão é um dos sentimentos mais nobres e, ao mesmo tempo, um dos mais complexos, pelo fato de estarmos envolvidos em muitas ações orgulhosas e egocêntricas. O orgulho e o egoísmo inibem a expressão ativa da compaixão, fazendo com que os objetos de desejo sejam direcionados para o eu, pelo eu e com o eu. Essas delusões criam a percepção de que não há espaço para mais nada além de si mesmo, exercem forte bloqueio ao desenvolvimento da compaixão e fazem com que a mente fique superlotada de intenções egocêntricas. Este processo pode ser exemplificado pelo consumo compulsivo e o descaso com o meio ambiente, evidenciando claramente os motivos pelos quais a compaixão é o infalível antídoto contra o veneno do orgulho.

Outro obstáculo que inibe a compreensão genuína da compaixão é a confusão mental, em que a ação compassiva se confunde com o desejo de se envolver emocionalmente com o sofrimento alheio. Aqui há duas perspectivas próximas, mas distintas: a intenção genuína de que os outros não sofram e a intenção distorcida de sofrer junto. Neste ponto, temos de analisar a relação cármica de cada indivíduo e entender que cada um de nós sofre por conta da própria ignorância e, portanto, não nos será útil sofrer com o sofrimento dos outros. Necessitamos aplicar uma boa dose de generosidade, tanto para consigo mesmo quanto para com os outros.

Por mais patético e estúpido que possa parecer, o ser humano sofre inconscientemente, pois vive apegado ao lado obscuro da mente. Por este motivo, o fator memória precisa ser ativado para nos alertar de que o sofrimento dos outros exibe seu próprio carma, ou seja, seu carma se manifesta por meio dos outros, e vice-versa. São questões interdependentes, porém, o sofrimento alheio não nos trará qualquer benefício; ao contrário, será em vão. Além disso, o processo cíclico de sofrimento é construído pela própria pessoa e só ela mesma pode diluí-lo. Assim, é importante desenvolver a empatia como forma de aprimoramento, mas não façamos dela uma nova forma de sofrimento. A compaixão, quando genuína e sábia, ajuda os outros e a si mesmo a desenraizar a ignorância, que leva ao sofrimento.

Niterói, 26 de maio de 2020

Wilson M. Moura

Contato para palestras: news@wilsonmmoura.com

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Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Atua como strategic thinker, palestrante, mentor e escritor, com o propósito de viabilizar pessoas e organizações a projetar estratégias de mentalidade de crescimento, maturidade emocional e a pacificação da mente, assim como otimizar metas e investimentos, vivenciar experiências transformadoras e de autorrealização.

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