CASTAS SOCIAIS

Wilson M. Moura Ξ August, 2nd 2018

O cenário brasileiro é extremamente complexo, em todos os sentidos. Visando entender melhor a situação, fiz um exercício para dimensionar o tamanho do buraco da nossa sombria conjuntura, sendo que, para isso, precisamos entender o equacionamento das nossas classes sociais e suas dicotomias. Assim como os indianos moldaram suas quatro castas sociais (brahmin, ksatriya, vaisya e sudra), insistindo na sua manutenção, a cultura brasileira também enquadra sua população em determinadas categorias, sendo que a minoria é excessivamente mais privilegiada do que a maioria.

A população brasileira é de 208 milhões de habitantes, com a renda distribuída da seguinte maneira: 1% (classe A, acima de 20 salários mínimos), 11% (classe B, entre 10 e 20 s.m.), 53% (classe C, entre 4 e 10 s.m.), 25% (classe D, de 2 a 4 s.m.) e 10% (classe E, até 2 s.m.). Além disso, 65% da classe C está enquadrada na faixa salarial de até 6 salários mínimos, o que nos faz concluir que 70% da população está inserida nas classes C (baixa), D e E, com remunerações que não lhes permitem viver de acordo com padrões satisfatórios de bem-estar e cidadania. E por assim dizer, o país produziu 12 milhões de analfabetos. Quem conhece o Brasil nas suas profundezas sabe que devemos ter outros 20 milhões de semianalfabetos, facilmente.

Outra estatística do IBGE aponta que existem 11,5 milhões de favelados no Brasil, número que me parece inexato, dado a dificuldade para se efetivar um censo demográfico nas favelas/comunidades. Mesmo como leigo, eu diria que esse número atingiria os 20 milhões de habitantes, sem hesitar.

Por outro lado, 10% da população possui menos de 18 anos, 15% são aposentados e pensionistas, além do alarmante dado de que apenas 13% da população declara imposto de renda. Sendo assim, temos 145.600.000 de pessoas com ganho inferior a 6 salários mínimos, sem contribuir ou pouco contribuindo com o erário público, numa circunstância de completo desequilíbrio econômico/financeiro. Conclusão: 70% da população é sustentada por 30%.

A inflação calculada pelos órgãos competentes não abrange todas as classes sociais: os reajustes anuais de combustíveis, gás de cozinha, escolas, planos de saúde, energia elétrica, alimentos, seguros automotores, condomínios, etc., usualmente ultrapassam, em muito, os dados oficiais. A impressão é de que a inflação é contabilizada exclusivamente para a realidade das classes C, D e E.

Temos um PIB de US$ 1,8 trilhão, ou seja, dinheiro não é o x do problema. O grande gargalo está na cultura brasileira: suas crenças, intenções, valores e comportamentos. Não é somente uma questão educacional, é uma implicação muito mais ampla, cultural, enraizada em todas as classes sociais: orgulho, indisciplina, descomprometimento, desagregação, irresponsabilidade, desorganização, letargia e muitas dispersões. Um festival de culpar os outros, de caça às bruxas, como se todos não fossem parte integrante do contexto.

Só se educa a partir da crença e da intenção no aprendizado educacional, dos valores individuais e da mudança comportamental em si. A educação é, pois, uma consequência cultural. A maior prova disso é que a informação está aí, totalmente disponível, porém não vemos uma atitude genuína de mudança. Há mais de um smartphone por habitante, distribuídos em todas as classes sociais, num crescimento exponencial. Mas, e o desejo de mudança, onde está? Informação despejada a ermo é um movimento totalmente insipiente. É preciso transformá-la em conhecimento para que produza eficácia, caso contrário só faz enriquecer os meios de comunicação e gerar distrações, inquietações e excitações.

O caminho da simplicidade resolveria a maior parte dos problemas, a médio prazo. Imaginemos a implementação de concursos de provas e títulos (notório saber) para que políticos pudessem se candidatar, penas judiciais mínimas de 30 anos (sem direito a fiança) para crimes contra o erário público. Proibição de indicação de cargos públicos por parte dos membros dos 3 poderes, processos judiciais com o máximo de 3 recursos e duas instâncias, gratuidade nos serviços cartoriais, políticas públicas que explicitem direitos e deveres, em todas as classes sociais, dentre outras poucas coisas.

De fato, todas as classes sociais encontram-se na areia movediça e, usualmente, uns sofrem muito mais do que outros. Não existe a compreensão de que o quadro conjuntural é interdependente. A ignorância é geral e irrestrita, a despeito do nível educacional das pessoas: a cultura brasileira não é estruturada para transmutar o aprendizado em conhecimento. A minoria, educada e mais capacitada, não quer liderar e produzir abundância ilimitada. A maioria, com baixíssimo nível cultural e educacional, não possui competências para sair do buraco. A incoerência é evidente e berrante. Necessitamos desenvolver um pensamento crítico e a inteligência emocional em larga escala, caso contrário, continuaremos nas eternas tentativas de expor soluções paliativas, sem entender suas variáveis, alternâncias e contingências.

Mas enquanto o pensamento crítico e a simplicidade não se manifestam, só me resta praticar a paciência e contemplar minhas crenças, intenções, valores e a qualidade dos meus comportamentos. Estes sim, temas de meu pleno domínio.

Niterói, 2 de agosto de 2018

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência emocional e intrapessoal.

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