CARNAVAL E SUAS FANTASIAS

Wilson M. Moura Ξ February, 26th 2020

O carnaval é um evento formidável. Durante muitos anos eu experimentei da sua pujança em Recife, Olinda, Salvador, Porto Seguro, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Já, inclusive, toquei tamborim no ótimo Bloco da Rama, em Cabo Frio, nos idos dos anos ’80. Todos grandes momentos que ficaram registrados com enorme carinho.

Por meio do carnaval vemos que é possível decompor uma gigantesca capacidade organizacional popular. São milhares de escolas/blocos com suas músicas, indumentárias, instrumentos, confetes, alegorias, alas, comissões de frente, seguranças, abadás, trios elétricos, associações, contratos com fornecedores e prestadores de serviço, além de muitos outros detalhes, evidenciando um alto teor de organização e planejamento. Quanta disposição, quantas fantasias!

Hoje, numa vibe mais madura, o carnaval me evidencia duas facetas dignas de serem analisadas: uma euforia (sensação prazerosa), meio boba, e um contrassenso cultural latente. A alegria é certamente um elemento marcante do povo brasileiro, traço emocional essencial na vida dos seres humanos. Porém, de maneira inconsequente, pode se transformar numa profusão de sentimentos aflitivos como confusão mental, descomprometimento, indisciplina, ciúme, inveja, desagregação, irresponsabilidade, todos encontradas facilmente no cotidiano. De fato, produzimos uma alegria disfarçada de inúmeras distrações e excitações, fatores que induzem a uma sociedade sem horizontes, sem metas explícitas direcionadas para a prosperidade e o bem-estar comum e a qualidade de vida. A alegria, para que seja um vetor de transcendência consistente, necessita estar associada a outras três virtudes: compaixão (intenção de que os outros não sofram), amor (vontade de que todos sejam felizes) e equanimidade. Caso contrário, gera fundamentos movediços e volúveis.

Senão vejamos. O Brasil vive um ‘status quo’ de extensa e longa desconformidade. Temos um Constituição Federal prolixa, milhares de leis e decretos que não são cumpridos, uma Justiça injusta, Poderes que não servem à Coisa pública, além de amplo desequilíbrio social. Vivemos num paradigma de insensatez, uma miscelânea de ausência de deveres, baderna, falsidade, hipocrisia, melancolismo, consternação e depressão. O povo clama por mudanças, contudo não sabe definí-las claramente, nem como efetuá-las. Além disso, sustenta os mesmos políticos há décadas. Não, não temos mais o direito de nos dizer “um país jovem, desinformado”. Tanto desperdício!

Necessitamos nos organizar. Mas, peraí, nós sabemos nos organizar, não é mesmo? É o bom momento para nos arguir várias questões. Como podemos realizar o carnaval e ainda exportá-lo com tanta efetividade? Por que não conseguimos replicar os mesmos modelos organizacionais de eficácia e eficiência no cotidiano? Qual o nível intelectual das pessoas que organizam o carnaval? São pessoas com doutorados, formadas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Stanford ou Harvard? Por que aceitamos que o carnaval possua organizadores oficiais contraventores? Qual é nossa genuína motivação para mudar? Reitero a minha tese: não possuímos mais o direito de nos intitular “um país jovem, sem informações”. Mais do que a questão educacional, o cerne da equação é cultural. E isso envolve crenças, intenções, valores e hábitos, repletos de ambiguidades e incoerências.

Foquemos as escolas de samba do RJ e SP, por exemplo, verdadeiros antros de lavagem de dinheiro, trabalho escravo, promiscuidade, gerenciadas por contraventores e políticos corruptos, públicos e notórios. Ampla criatividade, mas pouca efetividade. Introduzem enredos inteligentes há décadas, clamando por mudanças comportamentais efetivas. O povo se esbalda, canta, samba, se fantasia, se exaure. Todavia, não assistimos a alterações culturais sadias e estáveis: a ideologia e os hábitos não mudam. O que fica é a sensação de libertinagem durante 5 dias, dentre os 395 anuais.

Além do que, aceitamos nos misturar com organizadores inescrupulosos e nos submetemos à irresponsabilidade, geral e irrestrita. Sem contar a fabulosa geração de “heróis nacionais”, ou seja, pessoas com pensamentos desprezíveis caracterizadas de cantor(a), estandartes, rainhas de bateria & cia., que emergem da noite pro dia, caprichosamente, exibindo estupidez, orgulho e vaidade, sob os efusivos aplausos do público e da mídia, interessada em cifras, exclusivamente.

É como se a população dispendesse toda sua energia durante 1 única semana e passasse as outras 51 restantes num mar de preguiça mental, letargia, esquecimento e desatenção, optando pelo prazer durante uma semana, contra desprazeres, lamúrias, críticas negativas e um enorme sentimento de culpa nas outras 51 semanas, num evidente contrassenso e ausência de maturidade.

Então, podemos nos arguir: onde estão os dogmas equivocados, os infortúnios? Por que nos motivamos para organizar, articular, nos comprometer e nos disciplinar para brincar o carnaval, mas também não direcionamos essa mesma vontade para arquitetar nossa sociedade com o mínimo de contemporaneidade, prosperidade e integridade? Ações essas que nos trariam uma alegria consciente, sustentável, coerente: um status quo de satisfação. Por que somos tão tacanhos? Nossa cultura é rica, hipoteticamente, contudo nosso padrão cultural é baixíssimo, desprovido de coerência e sensatez, mesmo com as condições de temperatura e pressão a nosso favor: nossos valores, intenções e crenças não são direcionados para a qualidade e a solução de problemas, mas sim para os subterfúgios, além das medíocres e eternas “reformas”.

Pronto, quarta-feira de cinzas. Acabou-se o carnaval e com ele, meu simples artigo. Tempo de tolerar os novos factóides e aguardar o próximo ano, na esperança de que o carnaval nos traga novos ventos de discernimento, contentamento e júbilo. Afinal, em meados do século XVIII o mestre Antoine Laurent de Lavoisier já nos ensinava “Na natureza nada se perde, tudo se transforma.”

Shuddhe, Shuddhe, Svaha! Que assim seja!

Niterói, 26 de fevereiro de 2020

Wilson M. Moura

Contato para palestras: will@wilsonmmoura.com

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Strategic thinker, mentor e escritor, especialista em mentalidade de crescimento e pacificação da mente.

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