BRASIL NU E CRU: UM EXERCÍCIO DE CIDADANIA

Wilson M. Moura Ξ January, 5th 2018

Após matutar alguns minutos sobre alguns adjetivos para conceituar o Brasil acabei chegando ao velho e eficaz termo ‘careta’. Isto mesmo: nosso país está careta, brega demais. Somos 209 milhões de habitantes e, ao efetuar um lépido e rasteiro exercício de cidadania, não nos é difícil constatar suas causas. Existem diferentes órgãos de pesquisa que nos oferecem critérios e classificações distintas, porém, para fins deste exercício, vou utilizar minha percepção grosseira, já que obter informações oficiais transparentes é uma missão impossível em nosso país. Possuímos sete classes sociais: E (abaixo da linha de pobreza), D (pobres), C1 (média baixa), C2 (média), C3 (média alta), B (ricos) e A (muito ricos). Além disso, temos um equilíbrio entre homens e mulheres. Possuímos sete classes sociais: E (abaixo da linha de pobreza), D (pobres), C1 (média baixa), C2 (média), C3 (média alta), B (ricos) e A (muito ricos). Além disso, temos um equilíbrio entre homens e mulheres.

As classes carentes (E e D) representam 21% da população, sendo constituídas de analfabetos e semianalfabetos, portanto, não possuem competências para refletir sobre o status quo reinante. Não podemos lhes imputar responsabilidade cívica, ou seja, representam uma preocupação permanente. As pessoas enquadradas na classe média baixa (C1) finalizaram o ensino médio, contudo tiveram padrões educacionais de baixíssima qualidade. Não receberam educação, apenas lhes apresentaram matérias escolares, sem que fizessem qualquer sentido prático ou teórico.

Essas três classes possuem muitos pontos de intersecção: fazem filhos às pencas, não possuem qualquer grau de comprometimento com o meio ambiente, não contribuem com os impostos comuns (IPTU, imposto de renda, etc.) e clamam pelos mesmos direitos constitucionais, isto é, são significativamente irresponsáveis como cidadãos. É latente afirmar que responsabilidade é um valor e, normalmente, faz parte do caráter do indivíduo. Dizem saber ler e escrever, mas não fazem qualquer esforço no sentido de agir conscientemente de acordo com o que leem. De fato, desejam todos os direitos de um cidadão, mas nunca se enquadram nos respectivos deveres. É como se todo os contribuintes fossem obrigados a bancá-los “ad aeternum”, sem que se comprometam a oferecer algo em troca. Muito louco! O sentido de comprometimento é nulo. É um cenário grave, pois estamos nos referindo à aproximadamente 50% da população brasileira.

Os indivíduos contidos nas classes C2 (média) e C3 (média alta) representam outros 30% da população. Obtiveram um título universitário, contudo, também não receberam educação de qualidade, pois o padrão das nossas escolas/universidades são medíocres, em sua maior parte. Não é por acaso que 71% dos brasileiros não sabem interpretar um texto, sendo o segundo país com pior nível de aprendizado no mundo, segundo estudos da OCDE. Há professores malformados e evidente falta de comprometimento entre docentes, funcionários e direção, numa triste constatação. Aqui jaz um intenso problema, pois o nível de violência, desrespeito e indisciplina dos estudantes é latente. Temos uma faca de dois gumes, onde um lado fere o outro e a ferida nunca é sarada.

Nesse contexto, também são cidadãos irresponsáveis, descomprometidos e orgulhosos, majoritariamente, usualmente culpando os outros pelos seus problemas e, raramente, introduzindo soluções. Talvez sejam as classes que apresentem maior nível de insatisfação conjuntural, um forte rancor, pois contribuem com os impostos e taxas e não recebem serviços públicos com mínima qualidade; é relevante informar que apenas 14% do povo brasileiro declara imposto de renda. Portanto, há um evidente estado de confusão mental, ou seja, inabilidade de entender as coisas como realmente são, além de forte indisciplina. Isto provoca dispersões múltiplas, inércia e preguiça para gerar ações virtuosas. Também há a presença constante da dúvida negativa, terrível fator inibidor de qualquer processo evolutivo.

Ao analisarmos a classe B (ricos), identificamos um percentual populacional de 19%, com inúmeros aspectos aflitivos como orgulho, egoísmo, dispersão, desagregação, descomprometimento, desorganização e irresponsabilidade. Intelectualizados, estudaram nas melhores universidades, vivem razoavelmente bem, fazem viagens internacionais, possuem cartões de crédito, trocam de carro anualmente, possuem casa própria e bem localizada, além de um ponto em comum: endividamento bancário. Por que, então, deveriam mudar o comportamento? O foco é o próprio umbigo, não havendo um desejo genuíno de aperfeiçoar o desenvolvimento espiritual. Vivem numa espécie de bolha cognitiva, uma forma de delusão absoluta, tentando proteger seus próprios interesses, sem focar aspectos evolutivos como empatia, transparência, integridade, diálogo, agregação, responsabilidade cívica. Culpam os outros pelas próprias dificuldades, invariavelmente. Não conseguem visualizar que, devido ao seu bom grau de intelectualidade e capacidade empreendedora, deveriam ser a classe mais ativa nas propostas de mudança. Aqui reside um perfeito quadro de letargia cívica, que me faz lembrar do escultor romeno vanguardista Constantin Brâncusi “A felicidade é uma complexidade resolvida”. Os intelectuais deveriam ter a obrigação de resolver complexidades e torná-las simples. Afinal a tarefa do intelectual é ser inconveniente, ou seja, criticar mas indicar as melhores práticas. Contudo, ao contrário, as xifópagas ciúme, inveja a avareza deitam e rolam.

Finalmente, os muito ricos (classe A) retratam 1% da população, contudo manipulam 80% da riqueza vigente. É uma estatística totalmente insana, que se perdura por séculos, simbolizando o desequilíbrio social e a imaturidade emocional. Consideram-se os semideuses, simbolizando todas as emoções aflitivas citadas acima, além de avidez, agressividade, prepotência, falsidade, hipocrisia, malevolência: um espetáculo dantesco de sentimentos aflitivos.

Bem, talvez minha visão sistêmica seja totalmente equivocada e eu tenha escrito um monte de besteiras, já que vivemos num cenário de intensa paradoxalidade. Entretanto, a realidade é nua e crua: nosso modelo de vida é patético, para não dizer estúpido. Portanto, por favor, prudência aos críticos afoitos: não sou contra qualquer classe, apenas procuro analisar os aspectos ideológicos e comportamentais com plena atenção, com os olhos da consciência. É lógico que existem pessoas íntegras em todas as classes, o que nos traz a certeza de que a causa raiz da problemática brasileira chama-se cultura: a maior parte dos valores vem de berço.

Eu não abro mão da regra da meritocracia, assim como o da escolha espontânea: aprender com o sofrimento e não sofrer com ele. Tenho apenas uma vontade, quase que utópica, de construir uma sociedade sábia, equânime, concentrada em aspectos construtivos e positivos. Soluções? Claro que existem, mas é necessário desenvolver diversas habilidades virtuosas como consciência, discernimento, plena atenção, disciplina, visão sistêmica, perseverança, responsabilidade pessoal e universal, flexibilidade, empatia, ética, renúncia, respeito aos outros e integridade. Este bloco de ações salutares produz confiança e motivação, caso contrário, continuaremos a viver neste paradigma de estupidez e do menor esforço. Lembremo-nos, sempre: não existem consequências sem causas precedentes. Difícil? Não! Trabalhoso, sim! Mas, sinceramente, existe outra solução sustentável que não seja pela consciência?

Vou finalizar parafraseando o mestre Neil Young “Hey hey, my my, rock and roll can never die”. Afinal, não custa nada sonhar.

Niterói, 5 de janeiro de 2018

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência cognitiva e emocional.

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