APRENDENDO A SABER, SABER FAZER E SABER SER

Wilson M. Moura Ξ May, 15th 2016

Noutro dia, uma estonteante lua cheia me inspirou a pensar sobre como eu poderia comparar o recheado e turbulento quadro que o Brasil vivencia. Meus pensamentos se multiplicavam e, quase que imediatamente, lembrei-me de alguns personagens superinteressantes, já que a história mundial nos oferece vários exemplos burlescos, dramáticos e reflexivos.

Ná há como evitar uma comparação com os clássicos ‘Sonho de uma noite de verão’, ‘Julio Cesar’ e ‘Macbeth’, do dramaturgo inglês William Shakespeare, transitando entre comédias e tragédias de uma forma embriagante. Lembrei do compositor inglês Henry Purcell, que no século XVII escreveu uma obra espetacular, a ópera barroca ‘Dido e Eneias’, com um dos lamentos mais envolventes da história.

Já o século XIX nos ofereceu uma contribuição valiosa entre intrigas, batalhas políticas e lamentos. Os romancistas franceses Alexandre Dumas e Auguste Masquet adoravam escrever dramas heróicos como “Os Três Mosqueteiros” e o “Conde de Monte Cristo”, recheados de traições e vinganças. Na Itália, o compositor Giuseppe Verdi introduzia várias óperas melodramáticas como ‘La Traviata’ e ‘Aida’. Na Alemanha, Richard Wagner compôs a magnífica ‘A cavalgada das Valquírias’, utilizada como trilha sonora do filme ‘Apocalypse Now’, 1979, uma das músicas mais densas de todos os tempos. Mas a crise no Brasil é tão extraordinária que eu não poderia esquecer da genial ‘Sinfonia nr. 9’, do maestro alemão Ludwig Van Beethoven, com suas variações enfurecidas.

Numa retrospectiva mais recente, recordei-me do filme ‘O desespero de Veronika Voss’, do alemão Rainer Fassbinder, exemplificando a ambiguidade da condição humana, que, imediatamente, me conectou com os ensaios pornográficos, angustiantes e deprimentes do diretor italiano Pier Paolo Pasolini.

Mas você pode estar perguntando por que eu resolvi escrever sobre esses caras. Por que esses gênios revelavam a loucura da sociedade, o lado bizarro da vida. O cenário brasileiro do século XXI apresenta muitas semelhanças com os exemplos citados acima, submerso num mar de mediocridades. Os critérios de qualidade de vida no Brasil são medíocres, num panorama de muitas complicações e discrepâncias, onde os mosquitos, raposas e ratazanas se multiplicaram exponencialmente, sem qualquer controle ou governança.

Porém, esta tacanha circunstância pode e deve nos servir para exercitar algumas lições. Precisamos aprender a olhar para o próprio umbigo e identificar as oportunidades de melhoria, conscientes de que só temos poder sobre nós mesmos. Efetuar um exercício de cidadania, de identificação de aspectos de qualidade para o desenvolvimento inteligente de uma nação. E isso passa pela analogia consciente das características da ideologia brasileira e, consequentemente, sua cultura. Ideologia é a resultante de três componentes: valores, intenções e crenças. Cultura é função direta da ideologia e comportamento, isto é, quando colocamos a ideologia em ação explícita. Portanto, aqui temos a nossa pedra filosofal, nosso precioso objeto de análise.

Nesse ponto, temos que investigar as qualificações da nossa cultura. Eu diria que nós, brasileiros, temos quatro características virtuosas: criatividade, comunicabilidade, alegria e compaixão. Somos alegres, comunicativos, criativos e compassivos. Atenção: compaixão não é sentir pena de alguém, como muitos pensam, mas sim ter a vontade que os outros não sofram e que desenvolvam métodos de aprender com o sofrimento. É um conceito muito próximo da empatia, quando nos colocamos no lugar do outro, contudo devemos tomar o devido cuidado para não sofrer com o sofrimento alheio, uma forma de ação totalmente dispensável. Outra questão relevante a ser observada é que nossa criatividade é pouco ou quase nada efetiva: não a aproveitamos para transformar o país de maneira eficaz e eficiente, num gigantesco desperdício de talentos.

De outra forma, devemos analisar cuidadosamente o lado sombrio, as peculiaridades ignorantes, que nos imprimem o lodo da mediocridade. É fundamental frisar que o conceito de ignorância é totalmente diferente de inteligência: é a incapacidade de enxergar os fenômenos como realmente são, a negação do conhecimento, causa raiz de todo sofrimento. Eis aqui a parte mais interessante, já que é o momento de encarar os sentimentos aflitivos, as ações que nos colocam nessa areia movediça, num pacote de confusão mental, preguiça, inércia, geral e irrestrito

Nesse ponto, é fundamental refletir sobre a incapacidade de transformar intenções em comportamentos. Intenção é algo diferente de comportamento: intencionar é uma ação mental, enquanto que o comportamento se caracteriza por meio de ações físicas explícitas. Precisamos aprender a manifestar o querer, a vontade de mudança, de forma consciente e responsável. Esse é outro aspecto relevante porque as pessoas pensam e falam em mudar, mas não mudam, evidenciando que duas coisas: não querem mudar ou não sabem como transformar boas intenções em comportamento. Uma coisa é certa: a mudança só vem acompanhada de autoconhecimento, alicerçada por uma vontade genuína. Mas, conforme bradava um ex-aluno, “mudar dá trabalho, hein professor!”. E como diriam os franceses “de toute façon” necessitamos aprender a saber, saber fazer e saber ser.

Niterói, 15 de maio de 2016

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Educador, mentor, escritor e palestrante, especialista em inteligência cognitiva e emocional.

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