ANSIEDADE E A PERCEPÇÃO TEMPORAL

Wilson M. Moura Ξ October, 15th 2019

A viagem da percepção mental através do tempo sempre me atraiu. Não é por acaso que eu adorava os seriados O túnel do tempo e Jornada nas estrelas; o teletransporte utilizado para o deslocamento no tempo e no espaço me transmitia a possibilidade de interagir em mundos paralelos, no passado e no futuro.

Entretanto, atualmente, a percepção temporal exibe outro componente capital relacionado com a ansiedade: a precipitação. O mundo gira em função da aceleração, da imprudência e da impaciência, produzindo uma forma de delusão que gera preocupações com o futuro, ampliando a confusão mental, a letargia e um desvio do momento presente. O foco da ação, agitado e limitado, por consequência, desloca-se para o futuro, surgindo a preocupação de antecipá-lo, o que produz uma ânsia persistente em direção ao objeto de desejo, entretanto, sem qualquer visão sistêmica ou controle situacional.

Dessa forma, viver no futuro gera ansiedade, que inibe o usufruto do momento presente, desencadeando um estado mental angustiante, distraído, inquieto e excitado. Neste perfeito cenário shakespeariano, a mente acionará sua tropa de choque, com seus mecanismos primitivos de defesa, mantendo o organismo num estado contínuo de tensão e estresse.

Invariavelmente, a ansiedade contínua faz com que se perca a verdadeira importância das coisas: traz sofrimento e diminui a capacidade de reflexão e planejamento. Além disso, ela também está sutilmente relacionada com o egoísmo, pois gera preocupações e dúvidas negativas concernentes apenas às razões da própria ansiedade e ao futuro, produzindo indiferença às angústias alheias e, consequentemente, bloqueando o desenvolvimento de qualquer forma de empatia. Com isto, surge o desejo incessante de que as coisas aconteçam rapidamente, a curtíssimo prazo, numa forma inconsciente de tentar se agarrar ao objeto de apego.

Eu estava diante de uma grande descoberta pessoal: a experiência temporal exibe duas dimensões distintas. Uma delas é segregadora, objetiva, em que é possível separar o tempo em passado, presente e futuro. Pressupõe o fluir dos acontecimentos através do tempo: o passado fica para trás e o futuro parece algo muito distante. Aqui há uma percepção nostálgica, em que o passado se encontra separado do presente, como se tudo o que foi vivenciado no passado não pudesse ser acessado no presente. Esse movimento está atrelado às sensações, agradáveis ou não, assim como aos apegos.

A outra dimensão, mais subjetiva, revela uma habilidade da mente de regressar ao passado espontânea e conscientemente, a partir do momento presente, vivenciando as sensações, emoções e sentimentos. Esta dimensão apresenta um lado mais criativo e inteligente da mente, uma inseparabilidade temporal, que proporciona liberdade de ação, em que é possível acessar as aflições experimentadas no passado, transmutá-las e estabelecer novos padrões mentais.

Lembrei-me da fantástica obra do psicanalista e psiquiatra suíço Carl Jung. Ele defendia que, no domínio psíquico, nada morre e que o passado vive no presente, nas diferentes camadas do inconsciente da mente. As camadas psíquicas constituem um testemunho vivo do passado vivido; elas são o passado que continua a viver, a memória do passado vivido. Por isso, nada expira e nada se perde.

Ao exercitarmos os fatores da consciência, discernimento e quietude mental estável, adquirimos autoconhecimento e habilidades de autodirecionamento que dão acesso às experiências vivenciadas no passado, mesmo estando no presente. Esse túnel do tempo consciente possibilita toda e qualquer forma de mudança comportamental, libertando o passado e, ao mesmo tempo, exibindo nitidamente todas as suas nuances, interpretações e qualificações. Esta experiência concreta traz nova projeção do futuro e abrevia as ansiedades e preocupações.

Passado, presente e futuro são aspectos interdependentes e dinâmicos, só existem no momento presente. Portanto, o passado não é algo que já passou, mas, sim, algo que pode ser constituído e moldado neste instante, da mesma forma que se constrói qualquer objeto mental. As sensações, percepções, emoções e sentimentos que foram formados no passado podem ser acessados no presente, de forma consciente e serena: é uma possibilidade que depende exclusivamente do treinamento da mente, num processo explícito de causa e consequência. Era a pitada de tempero que faltava para que eu pudesse concluir que a preocupação com o futuro não se fundamenta, já que ele está sendo formatado e organizado neste exato momento. Será motivo de atenção, sim, se a construção do momento presente não for produzida com discernimento e sabedoria.

A fim de disciplinar a mente, comecei a elaborar um roteiro que me auxiliasse no ajuste da ansiedade e na redução de suas consequências danosas, ou seja: o que eu precisaria fazer para diminuir a ansiedade. O primeiro passo era utilizar os fatores de concentração meditativa, especificamente no treinamento da contemplação, peça-chave para aquietar a mente. Essa habilidade daria condições de analisar minhas necessidades genuínas, aceitar as circunstâncias momentâneas, reduzir a quantidade de estímulos mentais e, serenamente, definir os objetivos e determinar os planos de ação.

Portanto, a decodificação do segredo para domar a ansiedade passa inevitavelmente pelo treinamento de três valores: disciplina, paciência e pacificação da mente.

Niterói, 15 de outubro de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, mentor, escritor e mestre em meditação, especialista em mentalidade de crescimento e pacificação da mente.

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