ABUNDÂNCIA GERAL E IRRESTRITA: É POSSÍVEL?

Wilson M. Moura Ξ July, 24th 2019

Um dos exercícios mais virtuosos da vida é aprender a olhar os fenômenos de diversas maneiras, aprimorando a visão sistêmica. A História nos oferece um cenário rude, porém resiliente, usualmente não exposto. Existem dados estatísticos positivos: se os compararmos, veremos que, apesar das brutalidades últimas, nunca distinguimos um período tão pacífico. Portanto, temos bons motivos rumo à esperança.

Nos últimos 100 anos, dados globais alinhados por projeto desenvolvido pela Universidade de Oxford ‘Our World in Data’ evidenciam que houve uma redução significativa no analfabetismo, pobreza, número de mortes por crimes violentos e doenças evitáveis. A longevidade média nos países desenvolvidos aumentou em 50%,o PIB per capita teve um incremento significativo e a mortalidade infantil decresceu dez vezes. Tivemos a expansão da tecnologia da informação, capacidade de compartilhar e acesso fácil às informações do mundo, comunicação de longa distância livre e de baixo custo. Além das tecnologias exponenciais (que se desenvolvem em dobro a cada 18 meses): inteligência artificial, impressoras 3d, robótica, automação industrial,nanotecnologia, realidade virtual, hipercomputação, biologia sintética, bioinformáticae nanoenergia,que tornam possível elevar drasticamente o padrão de vida de cada pessoa no planeta. Sem contar que já existem veículos que não consomem combustíveis fósseis e painéis de energia solar a preços populares. São dados que evidenciam grandes progressos e devem afastar a onda de pessimismo, muitas vezes reinante.Não podemos permitir que as aflições se superem em relação as virtudes. A natureza da vida é a impermanência e o grande desafio é buscar o equilíbrio.

Em meados do século passado, o pensador austríaco Peter F. Drucker nos indicava o caminho: “Fazer certo, as coisas certas.” Eficácia, eficiência e efetividade são as chaves para os desafios do presente. A sociedade deveria incluir essas matérias no sistema educacional, além de disciplinar os cidadãos a desenvolver um pensamento baseado em critérios e relevâncias. Contudo, não há uma atividade global nesse sentido e, além disso, a democracia, sistema político mais avançado que conseguimos produzir até hoje, esforça-se para ser ineficaz e ineficiente. Ele se baseia num tripé: povo, voto e eleitos. Para que haja eficácia seria necessário que desenvolvêssemos uma ideologia popular (valores, intenções e crenças) equânime e evoluída, no intuito de eleger candidatos éticos e competentes. Contudo, os critérios escolhidos não condizem com as necessidades vigentes, resultando em ações não efetivas e extremamente letárgicas. A democracia, do modo que nos é apresentada, não possui pilares de sustentação.

Por um lado, existem pessoas inovadoras e motivadas, visando um movimento inteligente e genuíno: alimentos sem agrotóxicos, liberdade de expressão, slow movement, equanimidade, paz interior. A ciência e a tecnologia transformam coisas outrora escassas e as tornam abundantes e acessíveis a todos. Na outra extremidade, uma esmagadora maioria de ‘poderes estatais’, que não representam as necessidades prementes, mas exclusivamente a uma insignificante parcela da população. Esses extremos indicam que precisamos nos engajar nas ações certas, de forma certa.

Aprender pela consciência ou pela consequência, eis a questão. Existem abundantes recursos; nos falta solucionar os problemas de acessibilidade aos recursos. É como se quiséssemos encarar o sofrimento sem conhecer suas vicissitudes. A maioria está preferindo sofrer, reclamar e culpar os outros do que reconhecer suas causas e circunstâncias. É uma simples questão de se colocar numa posição de contemplação e acessar os problemas de maneiras distintas.

A criatividade é um elemento abundante. Basta vermos como conseguimos reunir milhões de pessoas de forma organizada em curtos eventos: carnaval no Rio de Janeiro, Recife e Salvador, parada gay em São Paulo, festival folclórico de Parintins, São João no Nordeste. Há uma harmonia entre eficácia, eficiência e efetividade, desfilando na maior abundância. Sabemos fazer certo, as coisas certas. O foco da questão está em como acessamos nossos problemas. Quais os critérios utilizados para solucioná-los? Qual é o enfoque e a relevância?

Os pesquisadores Peter Diamandis e Steven Kotler indicam que o caminho para a abundância ocorre em três camadas: necessidades básicas (alimentação, água, abrigo), ferramentas de crescimento (energia, educação e acesso à informação visando a melhoria de qualidade de vida), além de saúde e liberdade ideais (obter o suficiente para beber ou comer e possuir cuidados de saúde e abrigo). Suas pesquisas afirmam quehá três grupos de pessoas que aceleram mudanças positivas. Os “inovadores faça você mesmo (DIY)”, empresários e inovadores sem medo de enfrentar grandes desafios, criando novas tecnologias que impulsionam negócios viáveis factíveis de serem feitos por você mesmo, ao mesmo tempo em que melhoram vidas em todo o mundo. Os tecno-filantropos, donos de empresas de tecnologia de ponta que estão provendo parcelas significativas de sua riqueza para melhorar a saúde global, educação e acesso a grandes recursos. E o bilhão expandido, grupo com o acesso à internet que se expande, fazendo com que bilhões de pessoas se juntem à conversa global, numa forma de melhorar suas próprias vidas, bem como suas comunidades.

Obviamente, as soluções mundiais necessitam de mudanças sociais e políticas, mas a tecnologia pode solucionar várias questões. Muitos não acreditam que os problemas globais possam ser solucionados, pois são persistentes. No entanto, historicamente existem muitos exemplos onde as ferramentas tecnológicas têm desbloqueado recursos que antes pareciam escassos.

Sim, são muitos obstáculos a serem ultrapassados, mas não podemos contestar os avanços realizados. Ao contrário do que muitos dizem, acredito que as soluções são simples, porém exigem foco, coerência, relevância, integração, prioridade e adequação. A inovação, tão propagada, deve passar por um processo de simplificação para que os resultados se acelerem. Existem oito sentimentos aflitivos bem explícitos, que necessitam ser priorizados e bem trabalhados no sentido de acelerar o processo de mudança social consciente: orgulho, indisciplina, dispersões, desorganização, desagregação, descompromisso, irresponsabilidade e complacência.

Todas essas formas de ações incessantes e condicionadas são usadas como subterfúgio da ansiedade ou do estresse, dentre outras aflições, gerando vibrações cerebrais elevadas e confusão mental. Quanto maior a frequência cerebral, menos saúde, menor a clareza com relação aos fatos, maior o grau de ações infrutíferas; menos vemos com os olhos da consciência. São temas muito interessantes para pesquisa, pois temos uma geração muito bem informada, mas que não sabe o que fazer com tanta informação.

Necessitamos aprender a aprender, a nos liderar, projetando modelos efetivos de transmutação mental com simplicidade. Não podemos mais nos contentar com paradigmas tacanhos, estúpidos, de curto alcance, do menor esforço. É evidente que a abundância é possível. Mas necessitamos efetuar um exercício constante de integridade e isso passa pelo reconhecimento das próprias limitações e pela intenção de evoluir conscientemente.  Confiança e motivação são aspectos pessoais e intransferíveis, numa relação direta com discernimento, consciência e serenidade.

Os caminhos para um mundo melhor estão aí, disponíveis. Muitas vezes se mostram ocultos, não acessíveis. Mas sabemos que na natureza tudo é energia, portanto qualquer fenômeno pode ser transformado. Nosso desafio fundamental é avistar ferramentas úteis e simples que abranjam a evolução da mente como um todo, entender o genuíno sentido da vida. Um movimento pessoal, paciente, de dentro para fora, que visa analisar com plena atenção 4 processos cotidianos: valores, intenções, crenças e comportamentos. Este treinamento irá desenvolver novas habilidades voltadas para o outro, inexoravelmente, como num passe de mágica. A mudança cultural de uma sociedade se dá a partir do indivíduo. Precisamos gerar uma mutação positiva de DNA, direcionada para a alegria e a quietude mental estável. Viver 100 anos com doenças mentais certamente não é a meta mais auspiciosa. A saúde de um povo depende da sua cultura, ou seja, sua ideologia e seu comportamento. Aí reside o foco de análise. Afinal de contas, o escritor alemão Ulrich Leonard Tolle nos ofereceu uma preciosa pérola “Aprenda como viver e morrer; e como não fazer do viver e do morrer um problema”.

Mãos à obra, pois!

Niterói, 24 de julho de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, escritor e mentor, especialista em tendências comportamentais.

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