A ESTRUTURAÇÃO DEPENDENTE DO QUE CHAMAMOS DE EU

Wilson M. Moura Ξ November, 11th 2019

Depois de analisarmos a delusão e a atividade mental de criar e ocultar da mente, vamos examinar o processo de criação e estruturação dependente deste tal de ‘eu’. À medida que avançamos pelo caminho espiritual, começamos a visualizar melhor as relações causais de interdependência inerentes aos fenômenos da natureza. De fato, nos envolvemos com tantas coisas desnecessárias que acabamos ignorando os processos mentais de dependência; não nos atemos às genuínas necessidades nem procuramos entender a diferença entre como nos manifestamos momentaneamente e o que realmente somos. Vivemos num sistema que produz a ideia de que somos mais importantes do que realmente somos.

Basta focar nossas vidas e os padrões cotidianos de pensamento. Ao ver um objeto, a mente estabelece primeiramente um contato sensorial, sem gerar qualquer forma de ação cognitiva. Mas logo em seguida passa a interpretar e a interagir com as sensações, num esforço para conceituá-lo e discriminá-lo. A partir desse processo causal, os condicionamentos se ampliam progressivamente, movidos pelas percepções dos cinco órgãos sensoriais.

O cerne da questão aqui é que esse processo cognitivo é fundamentado equivocadamente num ‘eu’, habituado a se separar de todo o contexto do universo. Esse movimento delusório produz uma percepção distorcida de que o ‘eu’ existe independentemente, como se ele não fosse uma criação da minha própria mente, com início em alguns elementos de composição muito bem estruturados. É o mecanismo segregador da ignorância mental condicionada atuando e separando o criador da própria criação. Tal processo de atividade incessante da própria ignorância condicionada cria um conceito de uma identidade individual, relacionada à existência inerente (independente) de um ‘eu’: eu penso, eu existo, eu estou aqui, eu viajei, eu trabalho, eu estudo, etc.

O conceito do eu me associava a todas essas atividades, contudo, eu não procurava analisar, por outros aspectos, quem era esse eu, como se formara e onde ele estava efetivamente. O eu, o presumido Wilson, na verdade é caracterizado por um agregado composto pelos cinco elementos cosmofísicos da natureza (água, terra, ar, fogo e espaço) e uma mente. Esse assunto mereceu toda a minha atenção, já que eu concebia a existência do eu equivocadamente, como se o eu se situasse no corpo, sem perceber que não há como determinar sua posição fisicamente.

Mesmo que eu ampliasse significativamente qualquer ponto do meu corpo, apontando-o como sendo o eu, na verdade seriam alguns milheiros de células, portanto, milhões de outros seres. O dito eu constitui-se de milhões de outros eus, que também não são o eu. Intrigantemente, pude verificar que nenhuma das partes do meu corpo é o eu, não havendo nenhum local real que possa constituí-lo. Então, onde estaria esse tal de eu? Tratava-se de uma constatação evidente e lógica, contudo, me imaginei um verdadeiro ignorante. Como, até então, nunca havia atentado para algo tão relevante, ostensivo e racional? Uma verdadeira cegueira que, certamente, me impediu de entender muitas situações. O lado reconfortante, naquele momento, foi ter tido a certeza de que a lucidez é bem-vinda.

Excitado com tantas novidades, precisei fazer alguns exercícios respiratórios para retomar a concentração. Continuei refletindo sobre como a ação de pensar, falar ou escrever pode levar à hipótese de que o eu existe, já que ele está presente agora, respirando, percebendo e lendo. Mas, eu me perguntava: onde está este eu que está compreendendo o que está sendo lido? Neste estágio da análise, o intelecto me fazia acreditar que a mente seria o eu, porém, a mente também não é o eu, já que não é matéria e não possui início, meio e fim. Então, de acordo com meu pensamento cartesiano, concluí, por exclusão, que o eu inexistia, ou se encontrava perdido; no entanto, essa hipótese também não era verdadeira, já que a existência dos indivíduos pode ser comprovada pela capacidade cognitiva e pelo pensamento.

Finalmente, entendi que, embora o eu não seja nem o corpo, nem a mente, ele existe. Afinal, eu não era algo inerte e sem vida. Entendi melhor quando refleti sobre a diferença etimológica entre as palavras ser e estar, entre os conceitos de relativo e absoluto: o estar se refere a um estado, a objetos impermanentes, cíclicos, que possuem início, meio e fim. O eu é um estado mental, uma percepção relativa da mente, que pode gerar um corpo físico que nasce, vive e morre. Portanto, o corpo físico depende do estado da mente. Ele é uma criação delusória e magnífica, determinado, fixado, estruturado pela mente, caracterizado por um conjunto de agregados físicos e mentais, que gera um nome e um corpo com características constituídas.

Embora o eu seja impermanente, tenha um fim, as ações são formas de energia e quando cessam não desaparecem. Transformam-se em potências energéticas que se armazenam na mente, podendo se manifestar nesta ou em vidas futuras. Esse processo cíclico causará uma nova circunstância bem explícita, em que a ignorância mental assume um novo corpo, como se mudasse de roupa, com um agravante: não há qualquer liberdade de escolha. Desta forma, assim como se muda de roupa diariamente, alterna-se o corpo a cada vida, num ciclo condicionado e impermanente, em que novos ‘eus’ vão sendo gerados.

Comecei a elucidar que o indivíduo (eu) existe, mas de uma maneira dependentemente estruturada, de uma forma que não é fácil de conceber ou compreender sem profunda reflexão. Recordei-me, então, de um dos meus instrutores no curso de medicina tibetana, quando afirmara que o eu é o maior exemplo da geração de fenômenos impermanentes produzidos pela ignorância mental condicionada. Foi quando compreendi o motivo pelo qual a filosofia budista diz que o eu é dependentemente designado. Nada mais é do que uma criação da ignorância mental condicionada, uma forma ignorante de manifestação da mente que o exacerba e o distorce, tornando-o assunto prioritário, fazendo com que a pessoa se aprisione, convincentemente, a si mesma.

O eu passa a ser o foco de toda a energia do afeto (carinho), é o fator que define as prioridades de ação. Isso determina as ações de quem procura beneficiar exclusivamente a si mesmo, fazendo surgir o orgulho e o egocentrismo. De outro modo, também compreendi que a utilização do eu pode ser benéfica se acompanhada de uma razão funcional, isto é, o eu sendo agente ativo para que eu possa compreender e interagir com outras pessoas e para a formação sadia da personalidade, dando sentido a minha existência. Qualquer outro significado seria irrelevante e prejudicial.

Eu estava diante de uma nova perspectiva cognitiva com relação ao processo mente x corpo; em vez de afirmar ‘minha mente, meu corpo’, pude discernir que estou num corpo impermanente ao qual foi dado um nome, porém, ambos foram criados por uma mente que se manifesta momentaneamente de forma condicionada, com emaranhadas estruturas mentais, gerando novas formações mentais, e assim por diante, vida após vida. Tive um frutífero insight e consegui identificar uma ótima maneira de refletir sobre as diferenças entre o relativo e o absoluto. O objetivo maior, no longo prazo, é entender esse processo e desestruturá-lo com sabedoria.

Esse estudo me ajudou a analisar, por outro prisma, o processo de ignorância mental condicionada, fonte ou causa raiz de todas as possíveis manifestações de sofrimento. Meu propósito não era somente ganhar compreensão intelectual, mas também adquirir competências direcionadas para o autoconhecimento, de forma sustentável. A absorção desses fundamentos exigiu boa dose de paciência, pois não eram e não são passíveis de ser assimilados somente com leitura intelectual. Para que eu pudesse desenraizar a ignorância mental condicionada, precisava dedicar um tempo significativo ao desenvolvimento da mente, e isto envolvia alguns aspectos qualitativos. O processo delusório é extremamente bem estruturado e sutil e teria de ser muito bem mapeado para que pudesse ser diluído. Assim, este enredo elucidativo me alertou, compassivamente, de que sou o meu maior inimigo, mas também me conscientizou de que sou meu maior amigo.

Niterói, 11 de novembro de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, mentor, escritor e mestre em meditação, especialista em mentalidade de crescimento e pacificação da mente.

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