A ATIVIDADE MENTAL DE CRIAR E OCULTAR: COMO GERAMOS EXPERIÊNCIAS SEGREGADORAS

Wilson M. Moura Ξ November, 6th 2019

A segunda dimensão da ignorância mental condicionada introduz dois vetores ativos: a ação de criar e ocultar. A atividade de criação, de ação incessante na busca de novas experiências sensoriais prazerosas, produz uma espécie de libertinagem mental, em que a mente age obscurecidamente, sem qualquer senso crítico da realidade; ao mesmo tempo, gera um mecanismo de ocultação, de dissimulação, que sustenta um ciclo causal e condicionado de sofrimento que, de fato, exala a fragrância do aprisionamento mental.

A ação de criar gera as delusões, com suas percepções subjetivas, que, por sua vez, impedem a compreensão correta. É como ver e ao mesmo tempo não enxergar: um mecanismo impossibilita o outro, ocultando-o. Por exemplo, eu vejo meu corpo físico constituído, contudo, não enxergo as diversas formas de energia que o constituem nem que ele é formado por bilhões de outros seres que não são o corpo. Esta é a atividade mental em que só se vê a existência de um eu, sem que se consiga enxergar o mecanismo de criação do eu. Outra maneira de exemplificar essa questão é quando se pergunta: ‘Onde está a mente?’. E a pessoa responde apontando para o cérebro, como se cérebro e mente fossem a mesma coisa. É assim que começam a surgir as experiências de separação, que trazem a delusão de que o ‘eu’ independe da mente, de que não é uma criação da mente.

Portanto, a ignorância mental condicionada abrange outra característica fundamental, além da delusão: ao mesmo tempo em que cria alguma coisa, oculta outra. O indivíduo compreende o que está, mas, ao mesmo tempo, não compreende o que é. Usualmente dizemos ‘sou assim’, em vez de ‘estou assim’, numa manifestação explícita dessa dimensão da ignorância mental condicionada, dificilmente compreendida. As estruturas mentais condicionadas criam circunstâncias e efeitos, fazendo surgir novas situações e experiências, sem mostrar, contudo, que esse cenário nada mais é do que uma criação da própria mente. Esse processo de condicionamento mental atua como uma prisão, inibindo o entendimento sobre as próprias experiências, sem que se possam identificar suas causas e condições. É um processo oculto que separa o sujeito criador do objeto criado, fazendo surgir o processo da individualidade, das experiências segregadoras, a partir da dualidade mental.

De acordo com a filosofia budista, essa experiência mental condicionada se relaciona com o continuum da mente, ou melhor, com a continuidade mental relativa às inúmeras vidas anteriores, num fio condutor que traz todas as estruturas mentais prévias, com seus enraizados conceitos e discriminações. Não se consegue entender que sujeito e objeto são fenômenos inseparáveis, e isto gera um processo de completa ausência de liberdade mental.

Logo, a ignorância mental condicionada está intrinsicamente relacionada com o intelecto, desenvolvendo conceitos e discriminações incompletos e deformados, que separam o criador do objeto criado, gerando as delusões. Essa característica faz com que haja uma experiência mental dual e distinta, definida como sujeito ou objeto: a manifestação oculta da mente distingue uma única experiência em duas, produzindo um objeto externo e um observador. As estruturas mentais internas do observador produzem um movimento segregador, em que a dualidade se manifesta a partir da aparência do objeto. Basta nos lembrar de como nos mantemos aprisionados nos conceitos e julgamentos que fazemos dos outros, como se não fossem impermanentes e não houvesse uma relação direta entre sujeito e objeto.

Assim, no processo da delusão há dois fenômenos resultantes: um observador que cria um objeto e se separa dele, e um objeto externo que ganha existência independente, como se ele existisse sem estar estritamente relacionado com o sujeito. Esse processo mental extremamente criativo atua sutilmente e não é percebido de forma consciente. Aqui existem dois aspectos inseparáveis de causa e efeito: uma experiência de estruturação do objeto e a criação do produto, do objeto em si, ambas vivenciadas pela mente.

Traduzindo, a parte grosseira da mente cria os problemas (delusões), e se separa deles, lhes facultando vida própria, ou seja, não consegue entender que as delusões são suas crias, num processo de segregação (separação). E o que é pior: depois, vive reclama da vida!

No entanto, esse processo delusório somente se mostrará visível por meio de determinadas situações. Por exemplo, para que se conheça uma pessoa, é preciso conviver e interagir com ela, estar presente em determinadas circunstâncias, quando suas estruturas mentais (percepções, emoções, pensamentos) irão se expressar. Portanto, só conhecemos alguém de fato quando a pessoa exprime suas intenções, valores, crenças e comportamentos. Da mesma forma, a ignorância mental condicionada necessita de certas circunstâncias para se expor, e o exercício prático meditativo tem o poder de exibir todos os seus artifícios de camuflagem.

A elucidação desse enigma nos faz entender que a dor é um sentimento inerente e inevitável aos seres sencientes (seres que sentem, que possuem sensações) e, portanto, as duas únicas formas de lidar com isso é: sofrer com a dor ou aprender com ela. Este raro e transcendente ensinamento me fez refletir sobre qual tem sido minha escolha até o presente momento, sobre qual seria a forma mais sábia de agir diante dos meus obstáculos e quais os motivos que me fizeram escolher a primeira opção em alguns momentos.

Niterói, 6 de novembro de 2019

Wilson M. Moura

Wilson M. Moura

Palestrante, mentor, escritor e mestre em meditação, especialista em mentalidade de crescimento e pacificação da mente.

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